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Estratégias de gestão impulsionam inovação e reconfiguram a Atenção Primária à Saúde no SUS 

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Por: Manoelli Santos

A Atenção Primária à Saúde (APS) como base do Sistema Único de Saúde (SUS) ganha novo impulso quando estratégias de gestão são desenvolvidas e implementadas, articulando políticas e práticas no cotidiano dos serviços. Essas iniciativas promovem mudanças na forma de ofertar o cuidado, ao organizar redes, qualificar processos de trabalho e orientar o uso de recursos, informações e pessoas. Experiências desenvolvidas em diferentes territórios do país demonstram que transformar o cuidado passa pela reconfiguração dos modelos de gestão e pela integração de atores em torno de objetivos comuns.  

Diante deste cenário, Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador-geral da Rede ColaboraAPS, entende que a articulação entre gestão e cuidado na Atenção Primária decorre da organização dos serviços de saúde, que decorrem tanto das práticas cotidianas das equipes quanto das diretrizes e estratégias formuladas em diferentes níveis de gestão do sistema. Nesse sentido, as decisões institucionais incidem diretamente sobre o trabalho nos territórios, ao mesmo tempo em que reforça a importância da construção de processos mais dialógicos e sensíveis às realidades locais. “Sabemos que a organização e o funcionamento de uma equipe de saúde da família (EqSF) e de uma unidade básica de saúde (UBS) é, em parte, resultado de decisões e ações cotidianas dos profissionais e gestores que atuam nas UBS. Por outro lado, há um conjunto de condições, diretrizes, normas e possibilidades que dependem de outros níveis de gestão, como a gestão municipal, por exemplo. Mais do que isso, estratégias desencadeadas nos níveis municipal, estadual e federal, a depender de seu conteúdo e forma, podem repercutir sobre o cotidiano dos serviços e sobre mudanças e inovações locais em diferentes âmbitos, como o infraestrutural ou no plano mais direto do processo de trabalho dos profissionais”, explica. 

Gestão inovadora fortalece a Atenção Primária à Saúde em Itabuna (BA) 

A Atenção Primária à Saúde (APS) de Itabuna, no sul da Bahia, vem passando por uma transformação significativa com a implementação do programa “APS em movimento: Gestão Peripatética na Atenção Primária à Saúde em Itabuna/BA“, iniciativa que reposiciona o cuidado em saúde a partir do território. Criado em março 2024, o programa surge como resposta a desafios históricos da APS, como a desmotivação dos trabalhadores e a predominância de um modelo hospitalocêntrico, pouco integrado às realidades locais. Inspirado nos princípios da Escola Peripatética, a experiência propõe uma gestão “em movimento”, que rompe com práticas engessadas e aproxima gestores, profissionais e comunidade, com o objetivo de fortalecer a gestão do cuidado, estimular a corresponsabilização entre os atores do sistema.  

Segundo atores da experiência, antes da implementação da experiência, o cenário era marcado pelo cansaço dos trabalhadores diante de um fluxo constante de queixas da comunidade e pelo avanço desse modelo hospitalocêntrico. A construção do programa dialoga com diferentes referências teóricas e práticas, como o conceito de trabalho vivo em ato, onde o trabalho humano ocorre no exato momento em que é executado e que determina a produção do cuidado, também nos princípios da Política Nacional de Atenção Básica e nos fundamentos da saúde coletiva.  O resultado é uma proposta construída de forma coletiva, reunindo diferentes saberes e vozes, com base em experiências voltadas à equidade em saúde desenvolvidas no município. 

O projeto se materializa no território, por meio de um movimento contínuo de interação entre gestão e serviços, no qual a equipe do nível central atua de forma próxima, realizando a escuta qualificada das reais necessidades e nos serviços, orientando, assim, a construção de ações mais alinhadas às demandas locais. Dessa escuta, busca-se que os projetos e planos de ação sejam construídos, mediados e impulsionados com base nas demandas oriundas do território. Uma vez trazidas essas demandas para a gestão, elas são analisadas para identificar o que é factível, elaborar estratégias de ação e, em seguida, retornar ao território. Trata-se de um movimento cíclico, de caráter peripatético, ou seja, em constante deslocamento, no qual há uma confluência entre demandas e propostas entre serviços, gestão e território. 

O programa tem origem no movimento “Repensando a APS”, que em 2022 buscava refletir sobre as práticas de cuidado e gestão no território, promovendo encontros formativos e estimulando profissionais a revisarem suas rotinas por meio de metodologias ativas. Mesmo com uma interrupção temporária, a iniciativa deixou como legado a valorização da escuta comunitária e da competência cultural como pilares do cuidado, além de impulsionar a criação do Grupo de Trabalho de Políticas de Equidade, voltado ao enfrentamento das desigualdades em saúde e à promoção de direitos de populações historicamente vulnerabilizadas, como população negra, LGBTQIAPN+, povos de terreiro, ciganos e pessoas em situação de rua. 

Dayse Batista, integrante da equipe gestora, explica que naquele momento a proposta era estimular cada categoria profissional a refletir sobre seu núcleo de cuidado e, a partir disso, identificar de que forma esses núcleos poderiam fortalecer o trabalho e qualificar as práticas da APS. “Ao longo do processo, enfrentamos dificuldades relacionadas às mudanças na equipe, incluindo alterações no nível de coordenação. Isso impactou a continuidade das ações, já que o trabalho precisou ser interrompido e retomado em diferentes momentos. Esse foi o principal entrave, marcado por mudanças estruturais no corpo técnico”. 

Nesse processo, segundo a gestora, a busca por novas formas de organização do trabalho e de cuidado deu origem a um modelo que propõe renovar práticas e produzir novos sentidos. A iniciativa representa uma tentativa de transformar o cotidiano dos serviços, trazendo novo fôlego e novas possibilidades para o fazer em saúde. Neste contexto, ela explica que a função do gestor peripatético “é estar constantemente em diálogo com o outro, seja aquele que atua no ambiente da secretaria, seja o que está nos espaços extramuros ou em qualquer território por onde se circula. Trata-se de observar e reconhecer o mundo, ampliando a cosmovisão e o olhar, compreendendo que todos os espaços, ambientes e pessoas são capazes de apontar problemas e, ao mesmo tempo, construir respostas. É, portanto, manter um contato contínuo, uma interação permanente. Também implica buscar competência cultural para dialogar com diferentes realidades, exercendo uma escuta ativa em que se fala, mas, sobretudo, se ouve”.  

Estruturado a partir de uma lógica de gestão integrada, que articula diferentes áreas, setores e processos de forma coordenada, o APS em Movimento conta com uma coordenação central e cinco núcleos temáticos: Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, Tático, Administrativo, Operacional e Participação Social, envolvendo trabalhadores da saúde, gestores, instituições de ensino superior, o Conselho Municipal de Saúde e a Secretaria Estadual de Saúde. Entre as estratégias adotadas estão reuniões semanais, visitas às unidades de saúde, apoio matricial e ações de mobilização comunitária, além do investimento em tecnologias leves de cuidado, como genogramas, ecomapas e projetos terapêuticos singulares, que fortalecem vínculos e promovem uma abordagem integral e humanizada. 

Segundo atores da experiência, os resultados já evidenciam mudanças expressivas no território. O número de atendimentos domiciliares aumentou, ampliando a presença das equipes junto à população. Houve a implantação de quatro novas equipes de Saúde da Família, além da ampliação das equipes multiprofissionais, do fortalecimento do Consultório na Rua e da criação de um programa municipal de residência multiprofissional. A partir do movimento da APS Movimento, a equipe identificou a necessidade de o município se reconhecer melhor. Dayse ressalta que a última territorialização havia sido realizada em 2008, o que evidenciou a importância de atualizar informações sobre o perfil epidemiológico, demográfico, social e cultural da população, bem como compreender melhor os territórios.  

“Com a realização da reterritorialização, foi possível promover uma redistribuição populacional mais adequada, com base no teto de agentes comunitários, o que contribuiu para o alcance da cobertura total. Além disso, houve a criação, por meio de adesão, de quatro novas equipes de Saúde da Família e quatro equipes e-Multi”, afirma Dayse. 

A experiência representa uma mudança de paradigma, a saúde deixa de estar centrada apenas nas unidades físicas. “Trata-se de um sistema de saúde pautado pela integralidade, entendida como diretriz central.”, explica a gestora. Ao integrar arte, práticas integrativas, educação em saúde e participação social, o programa reafirma que o cuidado vai além do atendimento clínico e se constrói na escuta, na cultura e na diversidade dos sujeitos. Em Itabuna, a Atenção Primária segue em movimento, demonstrando que inovar no SUS é caminhar junto com a população e transformar realidades a partir do território. 

A vigilância em saúde também acompanha esse movimento de deslocamento do cuidado, deixando de estar centrada apenas nas unidades físicas e passando a se consolidar nos territórios, nas dinâmicas sociais e nas relações cotidianas. É nesse contexto de convergência que a experiência de São Paulo se insere, ao fortalecer a integração entre vigilância e Atenção Primária e ampliar a capacidade das equipes de compreender, monitorar e intervir nas realidades locais de forma mais próxima, contínua e sensível às necessidades da população. 

Crédito: APS em movimento: Gestão Peripatética na Atenção Primária à Saúde em Itabuna/BA

São Paulo fortalece a vigilância em saúde com o NUVIS-AB e transforma a Atenção Primária no território 

A experiência “Implementação dos Núcleos de Vigilância em Saúde nas Unidades Básicas de Saúde – NUVIS-AB”, no município de São Paulo, promove uma mudança estratégica na forma como a vigilância em saúde se articula com a Atenção Primária, ao integrar práticas, equipes e informações diretamente no cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS). 

A iniciativa parte do reconhecimento de que a vigilância em saúde não deve atuar de forma isolada, mas integrada às ações assistenciais, contribuindo para um cuidado mais resolutivo, territorializado e orientado por dados. Nesse contexto, os Núcleos de Vigilância em Saúde na Atenção Básica (NUVIS-AB) surgem como dispositivos organizacionais capazes de qualificar o monitoramento de agravos, ampliar a capacidade de resposta das equipes e fortalecer a gestão do cuidado. 

A implementação dos NUVIS-AB envolve a reorganização dos processos de trabalho nas UBS, com definição de profissionais de referência, estabelecimento de fluxos de notificação e investigação, além da análise sistemática de indicadores de saúde. Essa estrutura permite que as equipes identifiquem precocemente situações de risco, atuem de forma mais ágil e desenvolvam ações de prevenção e promoção da saúde alinhadas às necessidades do território. Todas as UBSs do município possuem, em cada unidade, uma equipe de referência responsável por acompanhar continuamente as condições de saúde da população em seu território de abrangência. Esses núcleos atuam de forma articulada com as vigilâncias regionais e com a Secretaria Municipal da Saúde, garantindo alinhamento, comunicação e coordenação das ações em diferentes níveis da rede. 

Outro aspecto relevante da experiência é o fortalecimento da cultura de uso da informação em saúde para a tomada de decisão. Ao incorporar práticas de vigilância no cotidiano da Atenção Primária, os NUVIS-AB estimulam a análise crítica dos dados epidemiológicos, contribuindo para o planejamento de ações mais eficazes e para a qualificação da gestão local. Com composição multidisciplinar, as equipes reúnem profissionais de diversas áreas, ampliando a capacidade de análise e resposta diante dos desafios sanitários. A proposta se baseia no conceito ampliado de vigilância em saúde, que integra ações de proteção, promoção, prevenção e controle de riscos, além do monitoramento das doenças e agravos presentes no território. 

Na prática, isso significa que as equipes deixam de atuar apenas de forma reativa e passam a desenvolver um trabalho contínuo de leitura e interpretação da realidade local. O processo tem início com a territorialização sob a perspectiva da vigilância em saúde e da epidemiologia. A partir desse diagnóstico, são elencadas prioridades, elaborados planos estratégicos de ação e acompanhados indicadores de saúde diretamente relacionados ao cotidiano dos serviços. Esses indicadores, ainda em fase inicial de monitoramento, orientam intervenções mais precisas e contribuem para a qualificação da assistência. Para os atores da experiência, com os NUVIS-AB, as UBSs passam a antecipar riscos, planejar ações com base no conhecimento aprofundado do território e responder com maior rapidez às demandas de saúde pública. A expectativa é que o fortalecimento dessa estratégia contribua para melhorias sustentadas nas condições de vida da população. Ao integrar vigilância e cuidado no cotidiano dos serviços, a iniciativa reforça o papel da Atenção Primária como base do sistema de saúde, ampliando a capacidade de intervenção sobre os determinantes do processo saúde-doença e consolidando um modelo de atenção mais próximo das realidades locais. As propostas já vêm sendo incorporadas pelas unidades, que também passaram a desenvolver estratégias próprias de atuação. No entanto, neste momento, os impactos ainda são avaliados como de médio e longo prazo, especialmente no que diz respeito aos indicadores de saúde. 

Selma Anequini, integrante da equipe gestora, reforça que do ponto de vista qualitativo, é possível observar avanços importantes no processo de trabalho. “Há uma melhor organização das equipes, redução do retrabalho e a consolidação de uma equipe de referência em vigilância em saúde dentro de cada unidade. Também se percebe uma ampliação da criatividade na resolução dos problemas cotidianos e um olhar mais qualificado para o território, com definição mais precisa das prioridades de atuação”. 

Por isso, a avaliação baseada em indicadores ainda exige cautela. Embora haja sinais iniciais de melhora em alguns agravos como no caso da tuberculose, ainda não é possível afirmar resultados concretos, uma vez que esses dados precisam ser acompanhados ao longo do tempo para uma análise mais consistente.Segundo a gestora, em termos quantitativos, já foram implantados 485 núcleos de vigilância em saúde, considerando o total de 481 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e os Centros de Saúde-Escola, que também contam com esses núcleos, denominados NUVIS-AB (Núcleos de Vigilância em Saúde da Atenção Básica).  Cada núcleo conta, em média, com cerca de 10 profissionais, podendo variar conforme a unidade. Ao todo, mais de 5.100 trabalhadores da Atenção Básica estão envolvidos diretamente nas ações de vigilância em saúde em seus territórios.“Um aspecto relevante é a diversidade dos contextos em que esses núcleos estão inseridos. Três deles estão localizados em UBSs indígenas, em áreas rurais, o que demanda um olhar específico e sensível às particularidades das populações indígenas. Além disso, há núcleos situados em regiões centrais da cidade que atendem populações em situação de rua. Nesses casos, as equipes contam com a participação de representantes do Consultório na Rua, ampliando a capacidade de cuidado e análise sob a perspectiva da vigilância em saúde”, explica. 

Outro ponto importante na composição dos núcleos é a presença do Agente Comunitário de Saúde (ACS), que atua como representante fundamental dentro dessas equipes. Por sua proximidade com o território, o ACS contribui tanto com a coleta de informações quanto com a disseminação de orientações junto à população, desempenhando um papel estratégico na vigilância local. A iniciativa apresenta, assim, um modelo de organização que valoriza o território, a diversidade e a integração entre diferentes saberes e práticas no fortalecimento da saúde pública. 

Selma fala que “não houve resistência significativa à implementação, em grande parte porque foi adotada uma metodologia participativa e problematizadora. A integração entre vigilância em saúde e atenção básica foi um dos pilares desse processo”. Diante da diversidade das populações atendidas, foi estabelecido um conjunto de diretrizes por meio da Portaria Municipal nº 741/2022, segundo os atores da experiência, além de um documento orientador para a implantação dos núcleos. No entanto, as unidades tiveram autonomia para estruturar seus núcleos de acordo com as características do território. Assim, cada UBS pôde definir o formato mais adequado, considerando o perfil da população, o número de equipes de saúde da família, a quantidade de profissionais disponíveis e as categorias profissionais envolvidas. “Cada núcleo conta com um coordenador, também chamado de interlocutor, função exercida, em 99% dos casos, por profissionais de enfermagem, embora possa ser assumida por qualquer profissional de nível superior. A enfermagem, nesse contexto, tem se destacado como protagonista na condução das ações de vigilância em saúde dentro das unidades”. 

Para os atores da experiência, a estratégia favorece a integração entre diferentes áreas da saúde, como vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental, promovendo uma abordagem mais abrangente e intersetorial. Esse movimento amplia a capacidade do sistema de saúde de responder aos desafios contemporâneos, como o enfrentamento de doenças emergentes, reemergentes e condições crônicas. Os resultados observados indicam avanços na detecção oportuna de agravos, melhoria na qualidade das notificações e maior articulação entre equipes e níveis de gestão. A experiência também contribui para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Atualmente, todas as unidades dispõem de controle eletrônico, que possibilita a geração de relatórios e a filtragem de informações estratégicas sobre a situação de saúde da população. Esses dados são utilizados para identificar prioridades e subsidiar a construção da territorialização, processo que permite compreender as especificidades de cada território e orientar as intervenções. Além disso, o município desenvolveu um sistema de informação próprio, no qual os núcleos de vigilância registram, ao final de cada ano, suas experiências. Nesse espaço, são descritos os temas dos planos de ação implementados, bem como os resultados alcançados. A ferramenta permite o acompanhamento contínuo das iniciativas em todo o município, com possibilidade de análise por região e por unidade de saúde, oferecendo uma visão ampla e detalhada das ações desenvolvidas. 

No campo da avaliação, o trabalho tem sido conduzido com ênfase qualitativa. Como se trata de uma política recente, os impactos mensurados por indicadores numéricos ainda estão em fase de análise e devem ser analisados a médio e longo prazo. Por outro lado, segundo atores da experiência, já é possível observar avanços importantes no processo de trabalho. Entre eles, destacam-se o aumento da proatividade das equipes, a redução de retrabalho e o maior engajamento dos profissionais. “Esses resultados são percebidos a partir de avaliações situacionais realizadas desde o início da implantação, no final de 2022, quando foi aplicado um formulário às UBSs para mapear como se organizavam as ações de vigilância antes da criação dos núcleos”, explica Selma. 

A comparação entre esse diagnóstico inicial e o cenário atual evidencia mudanças significativas na organização do trabalho. As informações também são alimentadas pelas coordenações regionais, que acompanham de perto o desempenho das unidades e relatam melhorias na qualidade das ações e na agilidade das respostas às demandas do território. 

Outro aspecto relevante é a institucionalização de rotinas de trabalho. Cada um dos núcleos realiza reuniões mensais de vigilância, o que representa um volume expressivo de encontros dedicados à análise e planejamento das ações. Além disso, as equipes participam de reuniões regionais mensais, integrando diferentes unidades e fortalecendo a articulação entre vigilância e atenção básica em escala territorial ampliada. Esse conjunto de práticas tem contribuído para consolidar uma atuação mais integrada e estratégica, ampliando a capacidade de resposta do sistema de saúde e promovendo um olhar mais atento às dinâmicas e necessidades específicas de cada território. 

Os NUVIS-AB se configuram como uma estratégia de gestão, capaz de reorientar práticas e otimizar recursos. É nesse mesmo horizonte de integração, fortalecimento da gestão e qualificação dos processos de trabalho que se insere a experiência do Ceará, que amplia essa lógica ao estruturar uma política estadual que busca articular diferentes níveis de atenção e consolidar a Atenção Primária à Saúde como eixo central da organização do cuidado. 

Crédito: Implementação dos Núcleos de Vigilância em Saúde nas Unidades Básicas de Saúde – NUVIS-AB

Gestão estadual fortalece a APS e reorganiza de redes de cuidado no Ceará com o projeto “De Braços Abertos” 

O projeto “De Braços Abertos: atenção desde o primeiro cuidado: estratégia de fortalecimento da atenção primária à saúde no Ceará” vai além da qualificação assistencial e pode se configurar como um movimento estruturante de gestão. Ao enfrentar desafios históricos como a fragmentação da rede, a necessidade de qualificação dos processos de trabalho e o aumento das condições crônicas, o estado aposta em uma abordagem integrada, capaz de alinhar gestão, território e cuidado. 

Por se tratar de uma experiência de âmbito estadual, a gestão assume competências distintas em relação à esfera municipal. Enquanto no nível municipal a execução das ações ocorre de forma direta nos territórios, à gestão estadual cabe um papel estratégico de apoio técnico aos municípios, promoção da educação permanente, fomento ao desenvolvimento de políticas públicas, além do monitoramento e da avaliação das ações, sempre na perspectiva de fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. 

Nesse contexto, o projeto “De Braços Abertos” iniciou sua trajetória com a realização da primeira oficina do eixo 2, voltado à planificação, no Litoral Leste, em dezembro de 2023. Posteriormente, o lançamento oficial ocorreu no primeiro semestre de 2024, já com garantia orçamentária para a implementação dos três eixos estruturantes e alinhado às prioridades sanitárias estabelecidas no Plano Estadual de Saúde. Segundo os atores da experiência, a escolha das regiões para implementação da planificação, o Litoral Leste foi selecionado por apresentar uma trajetória consistente na Atenção Primária, com a melhor cobertura entre as cinco regiões e bons resultados, embora ainda enfrente desafios na organização da rede, especialmente na área materno-infantil. Já o Cariri iniciou o processo em 2024 e foi escolhido como espaço para o desenvolvimento de uma proposta mais ampliada e estratégica, incorporando, além da Atenção Primária e da atenção especializada, a atenção hospitalar e a governança como eixos centrais. 

Thaís Nogueira, integrante da equipe gestora da experiência, explica que o projeto é estruturado em três eixos de atuação. O primeiro é o de educação permanente, no qual são ofertadas diversas estratégias formativas, como cursos presenciais, seminários, webinários e oficinas regionais. O plano de educação permanente foi elaborado com base nas prioridades sanitárias definidas no Plano Estadual de Saúde, que foram convertidas em propostas formativas. Até então, não havia garantia de recursos específicos para a educação permanente na Atenção Primária, os recursos existentes eram majoritariamente direcionados à vigilância e à urgência e emergência. Com o projeto, parte do orçamento passou a ser destinada a essas ações, o que tem se mostrado fundamental.” 

Sob a perspectiva da macrogestão, o projeto reposiciona a APS como base da rede de atenção, articulando políticas, fluxos assistenciais e instrumentos de planejamento em escala estadual e regional. A iniciativa promove uma governança mais coordenada, baseada na integração entre níveis de atenção, no uso estratégico de informações em saúde e na indução de práticas mais resolutivas nos territórios. Um dos principais diferenciais da estratégia está na sua capacidade de conectar diferentes dimensões da gestão, como evidenciado pela planificação da atenção à saúde nas regiões Litoral Leste de Jaguaribe e Sul do Cariri, que articula Atenção Primária, Atenção Especializada e, no caso do Cariri, também a Atenção Hospitalar e a governança regional. Esse movimento amplia a capacidade de coordenação do cuidado e fortalece a lógica de redes regionalizadas, elemento central da gestão no SUS. 

A gestora explica que “no segundo eixo, foi adotada a metodologia de planificação da atenção à saúde, desenvolvida pelo CONASS e baseada no referencial teórico do professor Eugênio Vilaça Mendes. Essa abordagem propõe a organização e a qualificação dos processos de trabalho da Atenção Primária, integrando-a aos demais níveis de atenção, especialmente o ambulatorial especializado. Esse eixo está em desenvolvimento em duas das cinco regiões de saúde: Litoral Leste/Jaguaribe e Cariri. No Litoral Leste e Jaguaribe, segue-se o modelo tradicional da planificação, com foco na integração entre Atenção Primária e atenção especializada. Já no Cariri, a proposta é mais inovadora, ampliando a integração para incluir também a atenção hospitalar, além de incorporar o componente da governança. O terceiro eixo consiste em um convênio com a Universidade Federal do Ceará para o desenvolvimento de uma pesquisa de implementação. Essa pesquisa tem como objetivo apoiar o desenvolvimento do projeto, especialmente o eixo da planificação, ao mesmo tempo em que avalia seus impactos e resultados nos municípios e na Atenção Primária. A partir dessa iniciativa, estrutura-se também a chamada rede de articuladores regionais da Atenção Primária”, reforça a gestora.”  

Segundo atores da experiência, o projeto promove oficinas, encontros formativos e espaços de pactuação, que induz uma cultura de planejamento integrado, estimulando gestores e equipes a reorganizarem fluxos assistenciais, definirem responsabilidades e qualificarem o acesso, contribuindo para a redução de desigualdades. O eixo estratégico Educação Permanente em Saúde, deixa de ser apenas um instrumento formativo e passa a atuar como dispositivo de transformação da gestão, qualificando milhares de profissionais, além de consolidar uma cultura de avaliação e melhoria contínua. A formação permanente também induz mudanças nos processos de trabalho, aproximando gestão e cuidado e ampliando a autonomia das equipes nos territórios. 

Com a criação da rede de articuladores regionais, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), a dimensão estratégica da macrogestão visualiza o apoio técnico contínuo aos municípios, além de fortalecer o monitoramento e a avaliação das ações implementadas. Esse arranjo amplia a capacidade do estado de acompanhar a execução das políticas em tempo real, promovendo maior coerência entre planejamento e prática e aumentando a efetividade das ações. Segundo atores da experiência, os resultados já observados, como o resgate do planejamento das equipes, a ampliação da territorialização, a adoção da estratificação de risco e a implementação da avaliação multidimensional da pessoa idosa, evidenciam mudanças estruturais nos processos de trabalho.  

A gestora ressalta que a introdução de metas de segurança do paciente na Atenção Primária e o fortalecimento do monitoramento por indicadores também demonstram o avanço na qualificação da gestão, com foco em resultados e na melhoria contínua do cuidado. Com financiamento garantido até 2027, o projeto se consolida como uma política estruturante, com potencial de sustentabilidade e replicabilidade, contribuindo para a construção de uma APS mais resolutiva, integrada e capaz de responder, de forma estratégica, às necessidades de saúde da população cearense.  “Como nosso principal norte é o Plano Estadual de Saúde, a intenção é alcançar os indicadores nele estabelecidos, com foco tanto nos diretamente vinculados à Atenção Primária quanto nos demais. Entre os indicadores específicos da área, destacam-se: redução da gravidez na adolescência, ampliação da cobertura de agentes comunitários de saúde, realização da avaliação multidimensional da pessoa idosa, implantação de núcleos de segurança do paciente na Atenção Primária e redução das internações por condições sensíveis à Atenção Primária.  Todos esses indicadores possuem uma ação inicial e fundamental no âmbito da Atenção Primária”, explica.  

A integração entre a APS, a atenção especializada e a hospitalar no Cariri é uma das principais dificuldades. Thais diz que “o desafio não é apenas regional, mas estrutural. A integração entre níveis de atenção é complexa e envolve diversos fatores, como o diálogo entre profissionais, a interoperabilidade entre sistemas e a padronização de protocolos. É necessário, portanto, um conjunto de instrumentos técnicos, como linhas de cuidado e diretrizes clínicas, que orientem a atuação dos profissionais”. À medida que o projeto foi sendo desenvolvido, essas necessidades foram sendo identificadas e enfrentadas. “Foram elaboradas notas técnicas de estratificação de risco para gestantes, crianças, pessoas com hipertensão e diabetes, além de documentos voltados à gravidez na adolescência e à saúde da mulher. Essas produções técnicas têm apoiado os municípios nesse processo de organização do cuidado. Mesmo diante das dificuldades, a planificação tem contribuído para superar barreiras históricas entre os níveis de atenção. É comum, nesse contexto, a existência de processos de culpabilização, ora atribuídos à Atenção Primária, ora à especializada. No entanto, a experiência tem promovido um movimento importante de mudança de perspectiva, em que os profissionais passam a se “desarmar” e a reconhecer o usuário como o centro da rede de atenção. O foco deixa de ser a disputa entre níveis e passa a ser o cuidado integral ao usuário”. Parte dessas estratégias pode ser importante para aproximar os mundos da gestão e do cuidado, desencadeando processos que dificilmente surgiriam ou se viabilizariam a partir das unidades de saúde. 

Crédito: De Braços Abertos: atenção desde o primeiro cuidado: estratégia de fortalecimento da atenção primária à saúde no Ceará

Recife Monitora fortalece cultura avaliativa e qualifica a Atenção Básica com foco em resultados 

A experiência Recife Monitora: uma plataforma adaptativa de avaliação da qualidade na Atenção Básica” é uma iniciativa que reorganiza prática, integra informações e orienta a tomada de decisão na rede municipal de saúde. Em um cenário de busca por maior eficiência e qualidade na Atenção Básica, a experiência mostra como ferramentas de monitoramento e avaliação podem atuar como dispositivos estratégicos para qualificar a gestão em larga escala. 

A proposta surgiu a partir de um diagnóstico realizado em 2021, que revelou fragilidades importantes na rede, como a ausência de instrumentos sistematizados de avaliação, baixa satisfação dos usuários e uma cultura avaliativa ainda incipiente. A partir desse cenário, a gestão municipal desenvolveu uma metodologia adaptada à realidade local, com foco na gestão por resultados, uma das tendências da gestão contemporânea. O Recife Monitora estrutura fluxos contínuos de análise que permitem acompanhar, comparar e reorientar práticas em diferentes níveis da rede. 

Para Juliana Martins, integrante da equipe gestora, a organização da atenção básica em Recife tem avançado com a implementação de um modelo estruturado de avaliação, dividido em três eixos principais. A estratégia busca qualificar o atendimento, fortalecer o monitoramento das equipes de saúde e ampliar a escuta dos usuários no sistema público. 

Ela explica que o primeiro eixo é voltado para a autoavaliação das equipes. Por meio de uma plataforma desenvolvida em parceria com a gerência de saúde digital, os profissionais respondem a questões relacionadas às relações interprofissionais, às condições estruturais das unidades e ao próprio processo de trabalho. A iniciativa permite que as equipes reflitam sobre sua atuação e identifiquem pontos de melhoria no cotidiano dos serviços. 

Já o segundo eixo concentra-se na avaliação da satisfação dos usuários. Após serem atendidos na atenção primária, os cidadãos recebem um link via WhatsApp para responder a um questionário. A pesquisa contempla diferentes aspectos do atendimento, incluindo atributos essenciais da atenção primária, como coordenação do cuidado, longitudinalidade e competência cultural. Além disso, há uma pergunta específica sobre a satisfação geral do usuário com o serviço recebido. 

O terceiro eixo envolve os indicadores de desempenho das equipes. Atualmente, são utilizados os mesmos indicadores vinculados ao cofinanciamento federal  , o que permite alinhar o monitoramento local às diretrizes nacionais. Esses indicadores são considerados fundamentais para avaliar a qualidade da assistência e orientar a melhoria contínua das políticas públicas de saúde. Os ciclos de avaliação são realizados a cada quatro meses. A partir dos resultados, são promovidas discussões no nível central da gestão, com a participação da Secretaria Executiva de Atenção Básica. Paralelamente, os distritos sanitários, que representam o nível loco-regional de gestão, analisam os dados de forma mais detalhada. Essa abordagem amplia a capacidade da gestão de identificar gargalos, reconhecer boas práticas e induzir melhorias, consolidando um modelo em que a informação se torna um ativo central para a condução das políticas públicas. Trata-se, portanto, de uma lógica de macrogestão que articula diferentes dimensões do cuidado e da gestão, promovendo maior alinhamento entre planejamento, execução e avaliação. 

A implementação por ciclos quadrimestrais reforça essa perspectiva ao instituir uma dinâmica contínua de acompanhamento e ajuste. Com adesão voluntária das equipes por meio de plataforma digital, o processo envolve diagnóstico, capacitação, desenvolvimento de projetos-piloto e construção coletiva de soluções, fortalecendo o engajamento dos profissionais e a corresponsabilização pelos resultados.  

Para os atores da experiência, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, Recife está dividido em oito distritos sanitários, que funcionam como uma espécie de microrregionalização do sistema de saúde. Nesses territórios, os indicadores são avaliados de forma desagregada, permitindo uma leitura mais precisa da realidade de cada equipe. O município também conta com um sistema de monitoramento contínuo. Os resultados das avaliações são discutidos diretamente com as equipes de saúde, que, a partir da identificação de nós críticos, elaboram planos de ação para enfrentar os problemas detectados. Esses planos são acompanhados mensalmente. 

A cada novo ciclo quadrimestral, os dados são reavaliados, possibilitando a revisão das estratégias e a identificação de novos desafios. O processo contribui para consolidar uma lógica de melhoria contínua, fortalecendo a qualidade da atenção básica e promovendo avanços na gestão do cuidado no município. 

O novo modelo de avaliação tem como base um conjunto de indicadores de desempenho que refletem diretamente as prioridades da área da saúde. Entre eles, destacam-se os indicadores relacionados ao cuidado com a população idosa e ao acompanhamento de gestantes. Esses parâmetros integram o conjunto de métricas utilizadas no cofinanciamento, alinhando o monitoramento municipal às diretrizes nacionais. 

Além desses indicadores principais, o modelo também considera dois critérios complementares. Um deles diz respeito à adesão das equipes ao programa, que ocorre de forma voluntária. Nesse formato, cabe às próprias equipes optarem por participar, a partir do reconhecimento da importância de qualificar os processos de trabalho e fortalecer o uso de indicadores no planejamento das ações. 

Para ampliar essa participação, a gestão desenvolve estratégias de estímulo à adesão, incentivando o engajamento dos profissionais. Outro ponto acompanhado é a avaliação da qualidade, medida a partir do percentual de equipes participantes e do desempenho apresentado. 

Com base nesses resultados, as equipes são classificadas em diferentes níveis, como qualidade, excelência e aperfeiçoamento crítico. A categorização permite identificar com maior precisão onde estão os principais desafios, direcionando esforços de forma mais estratégica as equipes que demandam maior suporte. 

O modelo reforça a lógica de monitoramento contínuo e contribui para a melhoria da qualidade dos serviços prestados à população, ao mesmo tempo em que fortalece a gestão orientada por resultados. Esses indicadores de desempenho abrangem diferentes áreas estratégicas da saúde. Esses parâmetros fazem parte do conjunto de métricas vinculadas ao cofinanciamento, orientando o acompanhamento das metas e resultados no setor. 

Além desse conjunto principal, a gestão também monitora outros dois indicadores complementares. Um deles está relacionado à adesão das equipes ao programa, que ocorre de forma voluntária. Nesse modelo, são as próprias equipes que optam por participar, reconhecendo a importância de fortalecer os indicadores de programação e qualificar o processo de trabalho. Para incentivar essa participação, há um conjunto de estratégias voltadas ao estímulo da adesão das equipes. Paralelamente, a gestão acompanha a avaliação da qualidade dos serviços, observando o percentual de equipes participantes no programa.  A plataforma utilizada, conhecida internamente como BCI, funciona como um ambiente digital de acompanhamento dos indicadores e avaliações, acessado diretamente pelas equipes por meio de um link via web. 

Na prática, os profissionais utilizam a ferramenta tanto para inserir dados das avaliações quanto para acompanhar resultados por meio de relatórios. O sistema também integra informações das avaliações de satisfação dos usuários, embora não esteja conectado a outros sistemas nacionais além dos já utilizados na rotina local. Para os atores da experiência, apesar dos avanços, a adesão ao programa ainda é um desafio. Atualmente, cerca de 80% das equipes participam da iniciativa, que é de caráter voluntário. A gestão reconhece que um dos principais obstáculos é ampliar o engajamento das equipes que ainda não aderiram, reforçando a importância da plataforma como instrumento de organização do processo de trabalho, e não apenas como uma exigência burocrática. 

A proposta é que os dados coletados sirvam como base para reflexão, identificação de problemas e construção de soluções a partir da realidade de cada território. Nesse contexto, um dos desafios centrais é consolidar uma cultura de avaliação contínua.Para a gestora: “os resultados da avaliação de satisfação dos usuários apontam que o acolhimento e a receptividade das equipes estão entre os aspectos mais bem avaliados pela população, assim como a capacidade de resolução dos problemas apresentados nas unidades. Por outro lado, a principal queixa recorrente diz respeito à dificuldade no agendamento de consultas com especialistas. No modelo atual, o usuário precisa aguardar a regulação do sistema após o atendimento na atenção primária, o que pode gerar demora no acesso ao serviço especializado”. 

Outro ponto destacado pela gestão é a natureza “figital” do sistema, uma combinação entre ferramentas digitais e processos presenciais. Embora a plataforma seja fundamental para coleta e organização dos dados, o foco principal está na discussão dos indicadores, na identificação de nós críticos e na elaboração de planos de ação junto às equipes de saúde. Quando se trata de comparar resultados com outras capitais, a avaliação segue uma lógica formativa: “em vez de comparações diretas entre municípios de diferentes portes e realidades, a análise prioriza a evolução interna dos indicadores ao longo do tempo. A proposta é medir o avanço do próprio território, considerando suas especificidades, e assim avaliar o impacto das estratégias adotadas. 

Com esse modelo, Recife aposta na melhoria contínua da qualidade da atenção básica, integrando tecnologia, gestão participativa e análise contextualizada para fortalecer o cuidado à população”, explica a gestora.  

Os resultados alcançados, segundo os atores da experiência, demonstram o potencial da iniciativa. No primeiro quadrimestre de 2025, o número de equipes participantes mais do que dobrou, acompanhado por um expressivo volume de avaliações de usuários. Esse movimento não apenas amplia a base de dados disponível para a gestão, mas também fortalece a participação social e a transparência, elementos-chave para uma governança mais democrática e eficaz. Paralelamente, o aumento no número de equipes com melhores níveis de desempenho indica que o monitoramento sistemático, quando articulado a processos formativos e de apoio, pode induzir melhorias concretas na qualidade do cuidado. 

No campo da sustentabilidade, o Recife Monitora apresenta a institucionalização das práticas. O uso de recursos próprios, a produção de materiais técnicos e o envolvimento de diferentes atores: gestores, profissionais, usuários e conselhos de saúde contribuem para a consolidação da iniciativa como política estruturante, e não apenas como projeto pontual. 

Crédito: Recife Monitora: uma plataforma adaptativa de avaliação da qualidade na Atenção Básica

Cogestão fortalece a APS e transforma a gestão do SUS em Vitória de Santo Antão (PE) 

A experiência “Gestão democrática da APS: a experiência do colegiado integrado gestor como dispositivo de participação e fortalecimento institucional”, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, aposta em um modelo de gestão participativa tem promovido mudanças na organização da saúde pública, fortalecendo a integração entre serviços, ampliando o diálogo entre profissionais e consolidando práticas mais democráticas no âmbito do SUS. 

Em resposta aos desafios históricos de modelos centralizados e hierarquizados, o município apresenta uma experiência inovadora de gestão baseada na cogestão e na integração entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a Vigilância em Saúde (VS). A implantação de colegiados integrados gestores tem se mostrado uma estratégia para reorientar processos de trabalho, qualificar a tomada de decisão e fortalecer a governança do sistema de saúde no território. 

José de Siqueira, integrante da equipe gestora, explica que o colegiado integrado é um dispositivo de gestão participativa, pautado no diálogo e no modelo democrático. Que conta com a presença de profissionais de diversas equipes da APS: Saúde da Família, Atenção Primária, equipes do Programa de Atenção Domiciliar ou de Saúde Bucal. Todos participam como representantes de suas equipes e categorias profissionais, como médicos, dentistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde (ACS), agentes de combate às endemias, além de profissionais da gestão. O objetivo é promover o diálogo, discutir possibilidades de intervenção e identificar caminhos mais consistentes para os problemas que surgem no cotidiano. Trata-se de uma atividade iniciada em 2021 e que, em 2023, passou a integrar a APS e a Vigilância em Saúde para discutir os problemas cotidianos do território. 

Esses colegiados reúnem mensalmente entre 60 e 70 trabalhadores de diferentes categorias em encontros estruturados que priorizam a escuta qualificada, a troca de experiências e a construção coletiva de soluções. Com cronogramas semestrais e organização compartilhada entre gestores, apoiadores e técnicos, os espaços de cogestão reduzem barreiras hierárquicas e promovem maior articulação entre os níveis de atenção, contribuindo diretamente para a integração dos serviços e para a efetividade das políticas públicas. 

Os atores da experiência explicam que a metodologia adotada reforça o caráter democrático da iniciativa, combinando rodas de conversa, oficinas, dinâmicas de acolhimento e momentos de pactuação e ações de educação permanente. Destaca-se também o eixo “Cuidando de Quem Cuida”, voltado à valorização e ao cuidado com os profissionais de saúde. O rodízio entre equipes amplia a diversidade de vozes e garante representatividade nos processos decisórios, enquanto parcerias institucionais contribuem para a qualificação técnica e a integração intersetorial. 

Para o gestor, a integração entre APS e VS possibilitou avanços como a contratualização de exames, a redução no tempo de entrega de resultados e a definição de processos mais efetivos de cuidado. Nesse contexto, os colegiados têm impulsionado a formulação de políticas estratégicas no município, como a política municipal LGBT+, e fortalecido ações voltadas à equidade, com foco em populações historicamente vulnerabilizadas, incluindo pessoas com deficiência e população em situação de rua, além do aprimoramento do acompanhamento pré-natal. Outro aspecto relevante é o fortalecimento da comunicação institucional e a valorização dos trabalhadores. Os colegiados funcionam como espaços de reconhecimento de práticas exitosas, promovendo a troca de experiências, o apoio entre equipes e a melhoria do ambiente de trabalho. A inclusão de atividades culturais e lúdicas contribui para o fortalecimento do vínculo entre os profissionais e para a construção de um ambiente mais colaborativo e saudável. 

No território, os efeitos da macrogestão integrada se refletem na ampliação do acesso e na qualificação das ações de saúde. Em eventos de grande porte, como o Carnaval e o São João, as equipes atuam de forma articulada em ações de prevenção, testagem e monitoramento de riscos. Iniciativas como o “Saúde na Feira” e o fortalecimento do Consultório na Rua demonstram como o planejamento coletivo permite adaptar o cuidado às realidades locais e alcançar populações em diferentes contextos. 

A experiência também tem sido fundamental no enfrentamento de desafios sazonais, como as arboviroses. Nos espaços de colegiado, profissionais analisam indicadores epidemiológicos, identificam áreas prioritárias e pactuam estratégias conjuntas, garantindo respostas mais rápidas, coordenadas e eficazes às demandas da população.  

No entanto, é possível fazer uma demarcação das melhorias com base nos relatos dos profissionais que estão há mais tempo. “O que ouvimos com frequência é que, a partir da criação do colegiado, eles passaram a perceber mudanças positivas. Acredito que isso tenha impactado alguns fluxos, não só no atendimento à população, mas também na relação entre os trabalhadores e a gestão, fortalecendo o papel dos profissionais no processo de decisão”, reforça o gestor.  

A demora na entrega de resultados de exames preventivos é um dos principais desafios para a efetividade da Atenção Primária à Saúde, pois impacta diretamente o acesso, a continuidade do cuidado e a confiança da população nos serviços públicos.  

Institucionalizados pela Secretaria Municipal de Saúde, os colegiados integrados gestores consolidam-se como uma estratégia sustentável de gestão, com forte potencial de replicação em outros territórios. Ao articular planejamento, participação, monitoramento e avaliação, a iniciativa fortalece o SUS no município e reafirma a importância de modelos de gestão mais horizontais, integrados e orientados pelas necessidades reais da população. Sendo assim, a cogestão em Vitória de Santo Antão demonstra que a macrogestão, quando baseada na participação e na integração, é capaz qualificar o cuidado.  

Crédito: Gestão democrática da APS: a experiência do colegiado integrado gestor como dispositivo de participação e fortalecimento institucional

Qualifica-APS transforma territórios e fortalece a gestão da Atenção Primária no Espírito Santo 

A experiência “Qualifica-APS: formação que transforma territórios e cuida onde é preciso, no Espírito Santo”, se consolida como uma estratégia de gestão na Atenção Primária à Saúde, ao articular formação, provimento de profissionais e fortalecimento da governança como pilares para reorganizar o cuidado e ampliar o acesso no Sistema Único de Saúde. Segundo os atores da experiência, o projeto foi implantado em um contexto marcado por baixa cobertura, que atingia apenas 62,5% da população, e por dificuldades históricas na fixação de profissionais em áreas vulneráveis. 

O projeto reposiciona o papel da gestão estadual como indutora de políticas públicas, atuando de forma integrada com os municípios por meio de planejamento estratégico, pactuação interfederativa e investimento contínuo em educação permanente. Trata-se de um modelo que busca qualificar a resolutividade da APS, reduzir desigualdades regionais e consolidar esse nível de atenção como ordenadora do cuidado no SUS.  

Maria Fernanda Moratori, integrante da equipe gestora, explica que o programa estadual de qualificação da atenção primária foi criado em 2019, depois da criação do Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde, onde o principal objetivo do programa é fortalecer a atenção primária dentro dos municípios do estado do Espírito Santo. Naquele momento, com a saída do programa Mais Médicos em especial, os municípios tinham muita dificuldade de manter profissionais na atenção primária e tinham e apresentavam baixas coberturas, em especial naqueles municípios com maior densidade populacional, que são os municípios da Grande Vitória, em particular, e os municípios com áreas remotas de difícil fixação de profissionais. Neste contexto, a inovação do programa, especialmente no ponto do provimento, foi garantir todas as categorias profissionais para a Estratégia de Saúde da Família, que um dos principais pontos do programa é justamente fortalecer a Estratégia de Saúde da Família. “A gente incluiu a categoria de medicina, da enfermagem e da odontologia, justamente para poder fortalecer essa Estratégia de Saúde da Família. Em 2022, foi incorporado também o componente da equipe multiprofissional e o fortalecimento das equipes de consultório na rua, para poder, junto aos municípios, categorias profissionais de nível superior para compor mais equipes de consultório na rua”, explica a gestora.  

O programa também traz subcomponentes de residências em saúde. Segundo Fernanda,  da, a princípio, o estado, em 2019, tinha apenas dois campos de residência, que eram fornecidos pelo Hospital Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo, da UFES, e o Hospital Infantil com a residência pediátrica.  Houve uma estruturação dos programas de residência e, a partir do credenciamento do Conselho Estadual de Educação e junto ao MEC e ao Ministério da Saúde também, em 2020, iniciam esses programas, com residências médicas e residências multiprofissionais, em saúde da família, em saúde coletiva, com ênfase em vigilância.  

A gestora ressalta que existem 17 programas de residência e que todos passam pela atenção primária.” Em 2022 começou o componente do apoio institucional, que tem o objetivo de fortalecer a gestão dos processos junto aos municípios, não só com a atenção primária, mas olhando para uma rede de atenção como um todo, procolos, fluxos de acompanhamento, organização do trabalho das equipes e como orienta as ações de educação permanente nos territórios”. O apoio institucional está junto com os gestores, em especial os coordenadores de atenção primária dos municípios, para trazer junto com esses gestores necessidades de organização dos processos de trabalho. 

As demandas de serviço são feitas no campo para intervenções no território. “A gente reforça a questão prática da educação permanente em saúde, justamente por melhorar a atuação deles no próprio serviço de saúde. O componente de residência, eles têm 60 horas de atuação, tanto atuação nos serviços aos quais eles estão vinculados, podendo ser unidade básica de saúde ou outro cenário de prática, e recebem informação durante todo esse período.  Eles têm momentos de discussão e educação permanente para os apoiadores atuarem mais fortemente junto com os gestores”, reforça a gestora.  

O programa completa sete anos de atuação no estado, e, ao longo desse período, especialmente no componente de provimento, os resultados estão relacionados à ampliação da cobertura da Atenção Primária nos municípios. Houve fortalecimento das equipes, o que possibilitou não apenas maior cobertura assistencial, mas também incremento nos recursos financeiros municipais. Esse avanço está diretamente associado ao trabalho de apoio institucional, que orienta os municípios quanto ao registro adequado de dados e à adesão a novas estratégias, contribuindo para a melhoria do financiamento. Maria Fernanda explica que é realizado um monitoramento contínuo dos dados, comparando equipes com e sem profissionais do programa. “Os resultados indicam que as equipes com provimento apresentam melhores indicadores na Atenção Primária. Destaca-se especialmente a qualificação do cuidado em áreas como saúde da criança, da mulher e do idoso, resultado do acompanhamento mais próximo e da discussão sistemática desses indicadores com os profissionais, sempre com foco na melhoria do cuidado prestado à população”. 

No âmbito municipal, os profissionais estão diretamente vinculados às gestões locais, e ações como o uso do prontuário eletrônico e o atendimento via telessaúde variam conforme as características de cada município. De forma geral, o estado tem investido nessas estratégias, promovendo o uso qualificado das ferramentas digitais. Durante o processo formativo, os profissionais são orientados a aprimorar o registro de dados e a utilizar instrumentos de monitoramento, não apenas para melhorar indicadores e financiamento, mas principalmente para garantir um cuidado integral e humanizado à população. 

A adesão ao programa depende dos municípios. “Aqueles que ainda não participam do componente de provimento são, em sua maioria, municípios que optaram por não aderir, muitas vezes por já possuírem cobertura elevada com equipes próprias. No entanto, o apoio institucional é ofertado a todos os municípios do estado, garantindo presença em 100% do território, independentemente da adesão ao provimento”.  

Para os atores da experiência, no que se refere às residências, há um compromisso importante com a interiorização dos campos de prática. Inicialmente concentrados em Vitória, hoje esses programas já estão presentes em 15 municípios, com o objetivo de expandir ainda mais essa distribuição. A proposta é ampliar a diversidade de cenários de prática e perfis populacionais, contribuindo para a formação de profissionais com uma visão mais abrangente e qualificada do cuidado em saúde.  

A gestora aponta que um dos principais desafios identificados é fixação dos profissionais nos serviços após a conclusão da formação. Ao longo de três anos, eles se qualificam como especialistas em Saúde da Família e Comunidade, nas áreas de enfermagem, medicina, odontologia e multiprofissional. No entanto, garantir que permaneçam nos territórios onde foram formados ainda é um desafio. Essa questão envolve não apenas o programa, mas todo o sistema de saúde, exigindo a construção de políticas de carreira, valorização profissional e estratégias de contratação que incentivem a permanência desses trabalhadores, fortalecendo o vínculo com a população e a qualidade da assistência. 

As avaliações dos participantes ressaltam aspectos positivos como a organização do programa, o acolhimento das equipes e a integração entre educação, gestão do trabalho e cuidado em saúde. Ao mesmo tempo, apontam oportunidades de aprimoramento, como a ampliação das vivências práticas e a diversificação dos espaços de diálogo, reforçando o caráter contínuo e adaptativo da política. 

Crédito: Qualifica-APS: formação que transforma territórios e cuida onde é preciso, no Espírito Santo

IntegraEPS transforma a Educação Permanente em estratégia de macrogestão na Atenção Primária em Fortaleza 

“IntegraEPS: Educação permanente como potência transformadora na qualificação dos saberes e práticas na Atenção Primária à Saúde” é a experiência desenvolvida pela Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (CE), que vem reposicionando a Educação Permanente em Saúde (EPS) como uma estratégia de gestão capaz de reorganizar processos de trabalho, qualificar o cuidado e fortalecer a governança no SUS. 

A iniciativa foi criada em parceria com a Escola de Saúde Pública de Fortaleza (ESPFOR), em um contexto marcado por desafios relacionados à fragmentação das ações formativas e à baixa articulação entre ensino, gestão e práticas assistenciais. Com uma rede composta por 134 Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS), 559 equipes de Saúde da Família e mais de 19 mil trabalhadores, o município identificou a necessidade de fortalecer a EPS como ferramenta estratégica capaz de induzir mudanças estruturais nos processos de trabalho. A partir de escutas com gestores, trabalhadores, técnicos regionais e representantes da comunidade, ficou evidente a demanda por espaços coletivos de reflexão que superassem a lógica de capacitações pontuais. Foi nesse cenário que o IntegraEPS foi criado, assumindo a EPS como dispositivo estratégico, ou seja, não apenas como ação educativa, mas como elemento central na gestão, no planejamento e na reorganização do cuidado. 

A implementação da experiência foi estruturada em quatro eixos integrados. O primeiro focou no fortalecimento dos Núcleos Regionais de Educação Permanente em Saúde (NUREPS), promovendo alinhamento conceitual e ampliando a capacidade de análise crítica dos territórios. O segundo eixo envolveu imersões com gestores das UAPS e coordenadorias da SMS, buscando consolidar a EPS como dimensão constitutiva da prática gerencial e fomentar ambientes institucionais mais abertos ao diálogo e à inovação. O terceiro eixo priorizou a escuta e o protagonismo dos trabalhadores da APS, por meio de rodas ampliadas que identificaram necessidades formativas diretamente vinculadas ao cotidiano dos serviços. Nesse contexto, destacam-se os responsáveis técnicos de EPS, função institucionalizada por normativa municipal, com carga horária específica para articular ações educativas no interior das unidades. Já o quarto eixo trouxe a valorização da Educação Popular em Saúde, incorporando saberes comunitários e fortalecendo práticas baseadas no diálogo e na construção coletiva.O diálogo entre saberes técnicos e populares se concretiza neste eixo da experiência, fundamentado na Educação Popular em Saúde como referência teórico-metodológica. Na prática, esse processo ocorre por meio de rodas de conversa, oficinas territoriais e espaços coletivos que envolvem profissionais de saúde, usuários, lideranças comunitárias e conselheiros, promovendo uma construção horizontal do conhecimento baseada na escuta, no diálogo e na problematização da realidade. 

Para os autores da experiência, 1.039 atores foram mobilizados entre gestores, profissionais e usuários. A experiência foi incorporada ao Plano Municipal de Saúde (2026–2029), fortalecendo sua institucionalização, e resultou na elaboração do Plano Municipal de Educação Permanente em Saúde (PMEPS), construído de forma participativa e orientado pelo quadrilátero da educação permanente: atenção, gestão, ensino e controle social. 

Nesse contexto, houve ampliação do número de responsáveis técnicos de EPS nas unidades e um crescimento de aproximadamente 38% nas ações de educação permanente em 2025. A iniciativa também impulsionou a retomada da Política Municipal de Educação Popular em Saúde e viabilizou parcerias com o Ministério da Saúde para formações voltadas às Redes de Atenção à Saúde. Entre as ações implantadas, destacam-se trilhas formativas para conselheiros de saúde, oficinas de gamificação, especializações em preceptoria e percursos interprofissionais voltados às linhas de cuidado. 

Para Lilian Fernandes, integrante da equipe gestora, apesar dos avanços, o processo também revelou desafios, como o desconhecimento inicial sobre o potencial da EPS e a dificuldade de incorporá-la à rotina dos serviços. No entanto, essas limitações foram gradualmente superadas por meio da mobilização dos territórios, do fortalecimento das redes colaborativas e do engajamento crescente de gestores e trabalhadores. 

“Como desdobramento, a experiência aponta para a necessidade de expandir o IntegraEPS para outros níveis de atenção, fortalecer a formação de gestores como educadores e ampliar a participação do controle social. Também destaca a importância de consolidar metodologias participativas de monitoramento e avaliação, reforçando o caráter estratégico da EPS na condução das políticas públicas”.  

Para a gestora, a experiência ainda não trabalha diretamente com indicadores clínico-assistenciais, mas apresenta resultados consistentes em indicadores de processo e organização do trabalho, que são determinantes para a melhoria dos resultados em saúde. Observou-se aumento de aproximadamente 38% nas ações de Educação Permanente no município, ampliação de cerca de 72% dos responsáveis técnicos de EPS nas unidades de saúde e maior capilaridade das ações formativas nos territórios. Além disso, houve fortalecimento da integração entre equipes, maior alinhamento entre gestão e trabalhadores e ampliação de processos formativos construídos a partir das demandas locais. Esses elementos contribuem para a melhoria da resolutividade da Atenção Primária, ainda que seus impactos diretos nos indicadores de saúde sejam mais perceptíveis no médio e longo prazo. 

O monitoramento do IntegraEPS ocorre de forma contínua e integrada, combinando estratégias quantitativas e qualitativas. São utilizados registros sistemáticos das atividades, relatórios, formulários avaliativos, atas de reuniões e devolutivas regionais, além do acompanhamento de indicadores de processo, como número de ações de EPS, participação dos atores e expansão dos responsáveis técnicos nas unidades. Paralelamente, a avaliação qualitativa se dá por meio de espaços de reflexão coletiva, como reuniões com os NUREPS, rodas com profissionais e momentos de análise do processo de trabalho, permitindo identificar mudanças nas práticas e no modo de organizar o cuidado. A incorporação da experiência ao Plano Municipal de Saúde e a construção do Plano Municipal de Educação Permanente garantem sua sustentabilidade e institucionalização, evitando que se configure como ação pontual e fortalecendo seu caráter permanente e transformador.  

As trilhas formativas foram construídas a partir de diagnóstico territorial e análise do processo de trabalho, o que garantiu maior aderência às necessidades reais das equipes. Entre os principais temas abordados destacam-se: aprendizagem ativa e colaborativa no SUS, educação permanente na prática, qualificação dos processos de trabalho na gestão da APS, formação em preceptoria, educação popular em saúde, gamificação aplicada à educação em saúde e formação de conselheiros de saúde. Esses temas refletem tanto demandas técnicas quanto necessidades relacionadas à gestão do cuidado, ao fortalecimento do trabalho em equipe e à ampliação da participação social. 

Crédito: IntegraEPS: Educação permanente como potência transformadora na qualificação dos saberes e práticas na Atenção Primária à Saúde

Experiências dos territórios fortalecem a macrogestão na APS e apontam caminhos para o SUS 

O conjunto de 30 experiências reunidas pela Rede ColaboraAPS mostram que as estratégias de macrogestão na Atenção Primária à Saúde (APS) se articulam às normas e diretrizes nacionais, ampliando sua concretização nos territórios. A avaliação é de Bruno Stelet, médico de família e comunidade e integrante da equipe de Gestão do Conhecimento da Rede ColaboraAPS, que destaca o papel dos territórios na produção de inovação, conhecimento e transformação do cuidado no SUS. 

Segundo ele, a macrogestão se concretiza quando os serviços de saúde conseguem reorganizar seus processos de trabalho, qualificar fluxos de cuidado, fortalecer a Educação Permanente e produzir informações que apoiem decisões mais sensíveis às desigualdades sociais. 

“Como integrante da frente de Gestão do Conhecimento, eu diria que o conjunto das 30 experiências mostra que as estratégias de macrogestão da APS não se expressam apenas em normas, planos ou diretrizes nacionais. Elas ganham materialidade quando os territórios reorganizam processos de trabalho, qualificam fluxos de cuidado, produzem informação para tomada de decisão, fortalecem a Educação Permanente e constroem respostas mais sensíveis às desigualdades sociais”, afirma. 

Bruno ressalta que, ao observar as experiências de forma transversal, é possível identificar alinhamento com agendas estruturantes da Saúde Coletiva e da macrogestão da APS, como territorialização, coordenação do cuidado, integração da rede, transformação digital, monitoramento e avaliação, equidade, intersetorialidade e participação social. “Muitas experiências partem de problemas concretos do cotidiano, como vazios assistenciais, fragmentação da rede, baixa resolutividade, dificuldade de acesso ou invisibilidade de determinados grupos, e os transformam em arranjos institucionais mais estáveis”, destaca. 

Nesse contexto, a Rede ColaboraAPS atua na sistematização e valorização dessas iniciativas, entendidas não apenas como práticas locais, mas como produção de conhecimento relevante para o fortalecimento do SUS. 

“Essas experiências não são apenas iniciativas locais bem-sucedidas, mas pistas reais de como fortalecer a APS no SUS, combinando planejamento, capacidade técnico-política, inovação organizacional e aprendizagem entre territórios”, explica Stelet. “O papel da Gestão do Conhecimento é justamente ajudar a sistematizar esse saber-fazer, para que ele circule, inspire outras realidades e contribua para o aprimoramento das políticas de APS.” 

Para o médico de família, a consolidação dessas experiências aponta para um caminho em que a gestão do conhecimento se torna estratégica para o fortalecimento da APS, permitindo que soluções construídas nos territórios contribuam diretamente para a qualificação das políticas públicas de saúde no país. 

A Rede ColaboraAPS é uma iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Criada com o propósito de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), a Rede busca ampliar processos de aprendizagem colaborativa, promover intercâmbios entre equipes e incentivar a cooperação horizontal entre diferentes territórios e experiências no SUS.  A iniciativa fomenta a circulação de saberes entre territórios, promove intercâmbios entre equipes, impulsiona a sistematização de conhecimentos aplicados e incentiva processos de aprendizagem colaborativa. Em breve o 1º ciclo colaborativo se encerra e as experiências serão publicizadas em forma de wedocs e outras produções. 

Fortaleza (CE): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/integraeps-educacao-permanente-como-potencia-transformadora-na-qualificacao-dos-saberes-e-praticas-na-atencao-primaria-a-saude/

GOVCE/CE: https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/projeto-de-bracos-abertos-atencao-desde-o-primeiro-cuidado-estrategia-de-fortalecimento-da-atencao-primaria-a-saude-no-ceara/

Itabuna (BA): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/aps-em-movimento-gestao-peripatetica-na-atencao-primaria-a-saude-em-itabuna-ba/

São Paulo (SP): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/implementacao-dos-nucleos-de-vigilancia-em-saude-nas-unidades-basicas-de-saude-nuvis-ab-do-municipio-de-sao-paulo-com-a-utilizacao-da-epidemiologia-como-ferramenta-de-gestao-visando-a-inte/

Recife (PE): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/recife-monitora-uma-plataforma-adaptativa-de-avaliacao-da-qualidade-na-atencao-basica/

(ES): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/qualifica-aps-formacao-que-transforma-territorios-e-cuida-onde-e-preciso-no-espirito-santo/

Vitória de Santo Antão (PE): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/gestao-democratica-da-aps-a-experiencia-do-colegiado-integrado-gestor-como-dispositivo-de-participacao-e-fortalecimento-institucional/