
Equidade e vulnerabilidade: experiências inovadoras na Atenção Primária à Saúde no SUS

Por: Manoelli Santos
A Rede ColaboraAPS, iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde, atua no fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil por meio da promoção de processos colaborativos, troca de saberes e sistematização de práticas no Sistema Único de Saúde (SUS). Alinhada ao princípio da equidade, a Rede articula e fortalece iniciativas desenvolvidas em distintos territórios, que reconhecem as desigualdades, buscando formas de mitigar os danos. Por serem experiências inovadoras e contextualizadas, contribuem para ampliar o acesso, qualificar o cuidado e no âmbito da APS. Essa atuação prática da Rede dialoga diretamente com o princípio da equidade, reforçando a importância de políticas e práticas que considerem as condições sociais e econômicas diversas da população.
A equidade em saúde é um dos princípios constitucionais que estruturam o Sistema Único de Saúde (SUS) e servem de base para a Atenção Primária à Saúde (APS). Segundo o Ministério da Saúde, a política de equidade tem como objetivo considerar as necessidades, diversidades e particularidades de cada indivíduo ou grupo social, com atenção às dimensões étnico-raciais, reconhecendo que a raça e o pertencimento étnico influenciam diretamente as condições de vida e de saúde. Nesse contexto, fatores étnico-raciais, habitação, educação e renda são compreendidos como determinantes sociais que impactam o acesso aos serviços e os resultados em saúde da população.
Mas o que significa, na prática, promover equidade em saúde em contextos de vulnerabilidade social? A APS é central para mitigar desigualdades e ampliar o acesso aos cuidados, especialmente para populações tradicionais, rurais ou em situação de maior fragilidade social. Há, contudo, desafios urgentes, especialmente no que diz respeito a necessidade de redução de disparidades entre regiões e grupos sociais, reflexo de desigualdades estruturais de renda e acesso a serviços públicos.
Desigualdades e vulnerabilidades no cotidiano da APS
O Brasil, terceiro país mais desigual da América Latina segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), enfrenta uma realidade na qual desigualdades de renda refletem diretamente em desigualdades em saúde, influenciando desde a cobertura vacinal até o acesso ao tratamento de doenças crônicas e prevenção de agravos. Estudos apontam que fatores como baixa escolaridade, ausência de emprego formal e condições precárias de moradia reduzem significativamente a expectativa de vida saudável. O Painel de Monitoramento da Equidade em Saúde, lançado em dezembro de 2024 pelo Ministério da Saúde, monitora o acesso de populações em situação de vulnerabilidade social no SUS, a fim de fortalecer estratégias de ampliação do cuidado. Neste contexto, a Estratégia de Saúde da Família, no Brasil, consolida-se como um importante instrumento de promoção da equidade, ao ampliar o acesso à saúde para populações historicamente desassistidas. Ao aproximar o Sistema Único de Saúde (SUS) dos territórios e das pessoas em maior situação de vulnerabilidade, a Atenção Primária à Saúde (APS) reafirma seu papel na redução das desigualdades.
Desigualdades que persistem e o papel da APS
O Painel de Monitoramento da Equidade em Saúde evidencia desigualdades regionais e populacionais, mostrando que estratégias de APS contextualizadas e intersetoriais são fundamentais para reduzir lacunas e promover cuidado integral. Para Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador geral da Rede ColaboraAPS, “as diferenças (enquanto diversidade) e as desigualdades (como injustiças) no Brasil e na saúde se dão em diferentes âmbitos e com formas de expressão e implicações distintas. Na Rede Colabora, e particularmente nas experiências do 1º Ciclo Colaborativo, temos experiências que abordam vulnerabilidades e equidade em termos socioespaciais, institucionais e organizacionais, em determinados grupos populacionais e diante de certas condições de saúde, além de sistematizar o saber-fazer existente nas experiências e de propiciar intercâmbios entre elas e outras que participam deste ciclo”
Nesse contexto, iniciativas locais como a da cidade de Salvador/BA ilustram como a APS pode atuar diretamente na promoção da equidade e no enfrentamento das desigualdades estruturais. A experiência “Formação para Equidade: a educação antirracista da ESPS da APS de Salvador”, criada em 2023, na Escola de Saúde Pública de Salvador (ESPS), visa responder ao problema das desigualdades raciais na saúde. Estruturada em cinco eixos estratégicos: educação crítica, abordagem interseccional, educação antirracista, educação permanente e interprofissionalidade, a ESPS incorporou a educação antirracista como eixo transversal, articulando compromisso ético-político com práticas de cuidado mais dignas e emancipadoras para a população negra soteropolitana. Segundo Djara Mahim, gestora da experiência, “o Núcleo de Educação Popular está se estruturando e estabelecendo sua relação como movimento social, de modo que este processo está em desenvolvimento.”
A experiência de Salvador por meio da ESPS estabelece parcerias com universidades e setores técnicos para desenvolver cursos, trilhas e módulos formativos sobre equidade, utilizando metodologias ativas e participação social. Destacam-se os cursos Racismo e Saúde, Referência inovadora na formação de profissionais de saúde; e Trilha Formativa de Equidade: direcionada a 100% dos trabalhadores da saúde municipal, abordando raça, gênero, sexualidade e deficiência. São realizados oficinas e módulos a fim de fortalecer processos educativos transformadores e interseccionais. Vale ressaltar que como resultado destes processos formativos, a experiência inclui a certificação de Unidades que participaram das formações antirracistas.
Sobre as mudanças práticas percebidas no atendimento cotidiano à população negra após os cursos, a gestora ressalta: “As pessoas passam a perceber que o racismo é um determinante social de saúde e passam estabelecer estratégias para seu enfrentamento eficaz o cotidiano do trabalho, conforme sua realidade. Passam a racializar os indicadores, fazem grupos com usuários e profissionais sobre a temática, passam a implementar a linha de cuidados em doença falciforme, procuram atender aos critérios para se tornar uma unidade antirracista”.
Impactos das Ações da ESPS na Promoção da Equidade Étnico-Racial no SUS
As ações da ESPS geraram aumento expressivo de atividades sobre equidade étnico-racial, maior engajamento de profissionais e usuários, redução de campos ignorados no quesito raça/cor e fortalecimento da Unidade Antirracista. Observou-se ainda maior sensibilidade às especificidades da população negra. A instituição promove ações de equidade durante períodos como o Carnaval, capacitando trabalhadores para atendimento livre de racismo e intensificando o preenchimento do Censo de Equidade da Secretaria Municipal da Saúde, instrumento estratégico para compreender melhor a diversidade do corpo de profissionais do SUS.
Nesse sentido, a experiência de Salvador evidencia que a promoção da equidade na Atenção Primária à Saúde começa pela transformação dos próprios processos formativos, preparando profissionais para reconhecer e enfrentar desigualdades históricas, como o racismo estrutural.
Para o médico de família e comunidade Bruno Stelet, integrante da equipe de Gestão do Conhecimento da Rede Colabora APS, esse movimento não é pontual, mas estruturante. “Esse eixo é central porque já reconhecemos que a APS e o SUS como um todo precisam responder ao racismo, machismo, capacitismo, etarismo, às violências e às diferentes vulnerabilidades territoriais e sociais. Essas experiências mostram que a equidade não é um adendo moral ao cuidado. Ela precisa entrar no desenho do processo de trabalho, nos protocolos, na formação e na forma como o território é lido”, afirma.
A avaliação ajuda a compreender que os desafios da equidade vão além da qualificação do cuidado e se aprofundam em territórios onde a vulnerabilidade é ainda mais intensa e institucionalizada. É o caso da população privada de liberdade, frequentemente invisibilizada nas políticas públicas e marcada por múltiplas exclusões sociais. Djara explica como a pedagogia crítica e a interprofissionalidade aplicadas pela ESPS ajudam a resolver conflitos de equipe e barreiras no cuidado integral ao paciente:
“A aplicação da pedagogia crítica e da interprofissionalidade pela ESPS atua como uma engrenagem transformadora para o SUS local. Em vez de focar apenas na técnica, essas abordagens miram nas relações humanas e na estrutura do cuidado. O profissional aprende a ler o território de Salvador (suas desigualdades e potências). Isso ajuda a superar barreiras de cuidado, pois o tratamento deixa de ser uma “receita de bolo” e passa a considerar a realidade do paciente”. A gestora explica que “quando surge um problema na equipe, a pedagogia crítica propõe que o grupo reflita sobre a causa raiz do conflito. Em Salvador, a ESPS busca qualificar as equipes para que o enfermeiro, o médico, o assistente social e o ACS planejem juntos, considerando os princípios da escola: educação antirracista, educação crítica, interprofissionalidade, educação permanente, educação popular, abordagem interseccional”.

Crédito: Experiência Formação para Equidade: a educação antirracista da ESPS da APS de Salvador. Salvador (BA).
Equidade em ação: promoção da saúde e cuidado integral no sistema prisional
A equidade em saúde, princípio estruturante do Sistema Único de Saúde, parte do reconhecimento de que nem todos os indivíduos e grupos sociais vivenciam as mesmas condições de vida, acesso e cuidado. É nesse contexto que se insere a experiência “Fortalecendo a promoção de saúde: incentivo às práticas corporais na atenção primária prisional”, desenvolvida no município de São Cristóvão, Sergipe, como uma estratégia que articula equidade e promoção da saúde no sistema prisional.
Diferentemente da igualdade, que pressupõe oferecer o mesmo a todos, a equidade orienta a distribuição de recursos e ações conforme as necessidades específicas de cada população, considerando marcadores sociais como raça, renda, território, gênero. Nesse sentido, a noção de vulnerabilidade torna-se central, pois evidencia como fatores sociais, econômicos e institucionais podem ampliar riscos e limitar o acesso à saúde.
No Brasil, populações em situação de vulnerabilidade enfrentam desafios persistentes que impactam diretamente seus indicadores de saúde. Entre esses grupos, pessoas privadas de liberdade ocupam uma posição particularmente sensível, marcada por condições estruturais adversas, superlotação, restrições de mobilidade e dificuldades de acesso à saúde. A atuação da Atenção Primária à Saúde (APS), nesse cenário, exige estratégias específicas, intersetoriais e territorializadas, capazes de responder às singularidades desse público e promover cuidado integral.
É nesse contexto que a experiência em São Cristóvão ganha destaque ao articular equidade e promoção da saúde no sistema prisional por meio de práticas corporais. A iniciativa, alinhada à recomendações nacionais que visam incentivar a atividade física como estratégia de promoção e prevenção, foi implementada no Complexo Penitenciário Dr. Manoel Carvalho Neto (COPEMCAN), unidade que abriga cerca de 2.700 pessoas, número que, segundo atores da experiência, ultrapassa em três vezes sua capacidade ideal e evidencia a urgência de políticas voltadas à equidade. A gestora da experiência, Tassia Leal, explica que “no COPEMCAN temos a predominância do público do gênero masculino, tem uma ala em que possuem mulheres trans e travestis no complexo, porém, estão direcionadas a outras atividades.”
A proposta partiu de um diagnóstico situacional que orientou o planejamento das atividades físicas, estruturadas de modo a garantir maior alcance e participação. Para isso, adotou-se a rotatividade tanto das práticas quanto dos usuários, permitindo que um número maior de internos tivesse acesso às ações. As atividades são realizadas em quadra e incluem alongamento, treino funcional, modalidades esportivas coletivas e exercícios localizados, promovendo não apenas benefícios físicos, mas também espaços de convivência e expressão corporal.
A implementação das ações demandou articulação contínua entre equipes multidisciplinares da APS e profissionais da segurança penitenciária, seguindo diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (PNAISP) e do Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Essa integração evidencia o papel da intersetorialidade como elemento-chave para a efetivação de políticas públicas em contextos complexos, nos quais saúde, segurança e justiça precisam atuar de forma coordenada.
Os resultados alcançados demonstram melhorias na socialização, na saúde mental e no fortalecimento do vínculo entre os internos e o profissional de educação física, indicando impactos que ultrapassam o campo biomédico e alcançam dimensões subjetivas e relacionais do cuidado. Tassia Leal, a gestora da experiência, explica que “as atividades são realizadas duas vezes na semana no Complexo, tentando estabelecer uma rotatividade para que o acesso a atividade física seja possível a um quantitativo significável”.
Apesar dos avanços, a experiência também revela desafios importantes. Questões relacionadas à segurança institucional, à necessidade de articulação intersetorial permanente e à limitação de materiais para diversificação das atividades configuram obstáculos constantes. Ainda assim, o êxito da iniciativa reforça que políticas orientadas pela equidade exigem cooperação entre diferentes setores e reconhecimento das especificidades dos territórios e populações atendidas.
Ao evidenciar a potência de ações simples, porém estrategicamente orientadas, a experiência de São Cristóvão reafirma que a equidade não se concretiza apenas como diretriz normativa, mas como prática cotidiana nos serviços de saúde. Em contextos de alta vulnerabilidade, como o sistema prisional, iniciativas como essa demonstram que é possível promover saúde, dignidade e cidadania, mesmo diante de limitações estruturais, desde que haja compromisso com um cuidado sensível às desigualdades e às múltiplas dimensões da vida social.
Essa mesma lógica de atuação, pautada no reconhecimento das vulnerabilidades específicas de cada território e na construção de respostas contextualizadas, também se faz presente em outros cenários, ainda que com dinâmicas distintas. Se, em São Cristóvão, o desafio está no cuidado em um ambiente de privação de liberdade, em áreas rurais brasileiras as iniquidades emergem de fatores como isolamento geográfico, exposição a riscos ambientais e acesso limitado a serviços de saúde. É nesse ponto que as experiências se conectam: ambas evidenciam a necessidade de uma Atenção Primária à Saúde capaz de ler o território, articular saberes e promover intervenções integradas.

Crédito: Experiência Fortalecendo a promoção de saúde: incentivo às práticas corporais na atenção primária prisional. São Cristóvão (SE).
Territórios rurais em foco: vigilância ambiental e equidade como pilares da Atenção Primária
No município de Itapetininga, no interior paulista, a vigilância ambiental tem se consolidado como uma estratégia central de cuidado individual e coletivo em territórios rurais. A experiência “Vigilância ambiental e cuidado integral em territórios rurais: experiência intersetorial da APS em Itapetininga (SP)” evidencia esse processo ao articular diferentes setores e práticas no enfrentamento de vulnerabilidades socioambientais.
Em uma região marcada pela produção agrícola intensiva e pela exposição a agrotóxicos, a APS tem desenvolvido ações intersetoriais voltadas à proteção de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas e consumidores, grupos que vivenciam, de forma mais intensa, situações de vulnerabilidade ambiental e ocupacional.
Nesse contexto, a equidade em saúde assume papel fundamental, pois orienta a construção de respostas diferenciadas a partir das necessidades específicas de cada território e população. Ao reconhecer as vulnerabilidades, entendidas como o conjunto de fatores sociais, ambientais e econômicos que aumentam a exposição a riscos e limitam o acesso ao cuidado, a APS consegue direcionar ações mais justas, eficazes e resolutivas.
Essa realidade evidencia como populações expostas a contextos de risco ambiental e precariedade tendem a apresentar maiores agravos e menor acesso a cuidados adequados, exigindo respostas mais integradas, territoriais e sensíveis por parte da APS. Em Itapetininga, essas respostas vêm sendo construídas a partir da articulação entre diferentes áreas e políticas públicas.
Desde 2017, a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) atua no município como uma importante ferramenta para enfrentar esse cenário. A iniciativa fortalece a integração entre a APS, a vigilância ambiental e a saúde do trabalhador, promovendo uma abordagem ampliada e intersetorial do cuidado.
Para Geyse Cardoso, gestora da experiência, um dos principais avanços foi fazer com que o território passasse a fazer parte do cuidado. Ela explica: “antes, muitas situações não chegavam ao sistema de saúde, pois não eram reconhecidas como relacionadas ao modo de vida das pessoas. Quando a APS e a vigilância em saúde passam a trabalhar juntas, dentro de suas competências, mas de forma articulada, as equipes começam a ter um olhar não só para o sintoma, mas também para o contexto em que os pacientes vivem, a relação com o trabalho, com a produção agrícola local e com a rotina dessas famílias”.
Isso permitiu, e ainda permite, identificar situações que passavam despercebidas e acompanhar essas pessoas de forma mais próxima e contínua. Houve uma mudança na forma de cuidar, e não apenas uma ação específica e isolada. Trata-se de uma transformação no modo de cuidado, com foco na mudança de cultura.
Entre as estratégias implementadas, destaca-se a criação de um Grupo de Trabalho dedicado à temática dos agrotóxicos, reunindo diferentes setores para discussão e encaminhamento de ações. Além disso, foram realizadas capacitações com profissionais da APS, agentes comunitários de saúde e trabalhadores rurais, ampliando o conhecimento sobre os riscos e as formas de prevenção.
As ações também avançaram para o campo educativo e comunitário, com a realização de oficinas em escolas e comunidades, abordando temas como agroecologia e prevenção de intoxicações. Parcerias com escolas agrícolas e produtores locais possibilitaram a construção de um monitoramento participativo, fortalecendo o vínculo entre saúde, educação e setor produtivo. Os resultados apontam para avanços significativos, como a maior sensibilização de profissionais e da população, a melhoria na qualidade das notificações de intoxicação e a inclusão do tema nos currículos escolares.
Geysa Cardoso, explica que as escolas podem procurar por essas oficinas e que o trabalho é realizado em parceria com as equipes. “As escolas podem procurar diretamente as Unidades Básicas de Saúde do território ou a Secretaria Municipal de Saúde. Esse trabalho é feito em parceria com as equipes. A ideia é construir atividades junto com o território, considerando a realidade de cada escola, da região dentro do próprio território. É um trabalho de educação em saúde. O objetivo é fortalecer o vínculo entre a escola, a comunidade e o serviço de saúde, criar um relacionamento entre os atores e a comunidade.”
Apesar dos avanços, desafios importantes permanecem, como a implementação de uma linha de cuidado completa para trabalhadores expostos a agrotóxicos, a expansão das ações para todas as unidades rurais, a criação de um banco de dados municipal e o aumento das notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A gestora reforça que “mais do que números, observamos, como resultado concreto, o fortalecimento da capacidade de identificação dos casos no território. Refletido no aumento de notificações no Sinan, o que não significa que haja mais casos, mas sim uma maior capacidade do sistema de reconhecer e registrar essas situações que antes eram invisíveis”.
Ao evidenciar que o reconhecimento das vulnerabilidades territoriais e a atuação intersetorial são caminhos fundamentais para a promoção da equidade, a experiência de Itapetininga oferece um importante ponto de inflexão para compreender outras realidades igualmente desafiadoras no país. Se, no interior paulista, as estratégias integradas se estruturam a partir da articulação entre setores e da leitura qualificada do território, na Amazônia esse mesmo princípio ganha novos contornos, exigindo inovação diante de barreiras geográficas e logísticas ainda mais complexas.
É nesse sentido que a experiência de Manicoré, no Amazonas aprofunda e ressignifica o debate: em um território onde rios substituem estradas e o isolamento impõe limites concretos ao acesso, a equidade se constrói a partir da adaptação das práticas de cuidado às dinâmicas locais. Assim, o que em Itapetininga se expressa na integração intersetorial e na vigilância territorial, em Manicoré se traduz na criação de estratégias que transformam os próprios caminhos fluviais em redes de cuidado, ampliando o alcance da Atenção Primária à Saúde e enfrentando, de forma direta, as vulnerabilidades históricas das populações ribeirinhas.
Dessa forma, ambas as experiências, ainda que situadas em contextos distintos, convergem ao demonstrar que a equidade na saúde não é um modelo único, mas uma construção situada, que exige sensibilidade, inovação e compromisso com as realidades concretas de cada território.

Crédito: A experiência “Vigilância ambiental e cuidado integral em territórios rurais: experiência intersetorial da APS em Itapetininga (SP)”.
Manicoré transforma rios em caminhos de cuidado e amplia acesso à saúde na Amazônia
Em um território marcado por grandes distâncias, isolamento geográfico e deslocamento predominantemente fluvial, o município de Manicoré tem enfrentado um dos principais desafios da saúde pública brasileira: garantir acesso à Atenção Primária à Saúde (APS) em contextos de alta vulnerabilidade. Segundo dados da experiência, em 2021, apenas 11% da população ribeirinha tinha cobertura assistencial, evidenciando um cenário de desigualdade que impactava diretamente as condições de vida e saúde dessas comunidades.
A realidade local expressa de forma concreta o conceito de equidade em saúde. Em Manicoré, isso significa reconhecer que populações ribeirinhas vivem sob múltiplas vulnerabilidades, geográficas, sociais e programáticas, que limitam o acesso a serviços essenciais e exigem respostas diferenciadas do poder público.
Foi nesse contexto que surgiu a experiência intitulada “No Banzeiro da Equidade: planejando caminhos, tecendo acesso no território líquido de Manicoré, Amazonas”, que reconfigurou o planejamento da saúde no município ao transformar rios, antes barreiras, em vias estratégicas de cuidado. A iniciativa partiu de uma compreensão ampliada das necessidades locais, incorporando a escuta ativa das comunidades e o mapeamento dos circuitos fluviais como elementos centrais da organização do cuidado.
Estruturada em sete fases, a experiência apostou na construção coletiva de soluções, valorizando os saberes territoriais e fortalecendo o vínculo entre equipes de saúde e população. A implementação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinhas e Fluviais, com infraestrutura adaptada, como Unidades Básicas de Saúde e ambulanchas, foi uma das principais estratégias para enfrentar as barreiras de acesso. Essas ações foram complementadas pela criação do “Caderno Cuidado nas Águas”, instrumento que organiza práticas e fluxos de atendimento no contexto amazônico.
A Educação Permanente em Saúde também se destacou como eixo fundamental, contribuindo para qualificar os profissionais diante das especificidades do território e das vulnerabilidades enfrentadas pelas comunidades. Ao mesmo tempo, o fortalecimento dos vínculos comunitários possibilitou maior adesão às ações de saúde e ampliou a corresponsabilização pelo cuidado. Para a agente de cooperação da Coordenação Nacional da Rede ColaboraAPS, Maísa Melara, a participação das pessoas do território é essencial nessa construção, para ela: “o planejamento incluiu a escuta qualificada de lideranças comunitárias e associações para mapear dinâmicas populacionais e fluxos deslocamento.”
Os resultados demonstram o impacto direto da incorporação da equidade como diretriz de gestão: segundo dados da experiência, a cobertura da APS foi ampliada para 100% da área ribeirinha, alcançando cerca de 230 comunidades e mobilizando aproximadamente 280 profissionais de saúde. Houve redução significativa dos vazios assistenciais, além da ampliação do acesso a ações de promoção, prevenção e cuidado contínuo.
A experiência revela uma mudança de paradigma: o reconhecimento das vulnerabilidades não como obstáculos intransponíveis, mas como ponto de partida para a formulação de políticas públicas mais justas e eficazes. Ao considerar as especificidades culturais, territoriais e sociais da população ribeirinha, Manicoré fortalece a integralidade do cuidado e reafirma o compromisso com o direito à saúde.
Apesar dos avanços, os desafios persistem. A logística fluvial, as condições climáticas adversas e a necessidade de articulação intersetorial contínua exigem planejamento permanente e investimento sustentado. Ainda assim, a experiência demonstra que a equidade, quando incorporada de forma concreta às práticas de gestão e cuidado, é capaz de transformar realidades e reduzir desigualdades históricas, especialmente em territórios marcados por profundas vulnerabilidades.
Maria Adriana Moreira, Secretária de Saúde do Município de Manicoré, aborda que o município adota estratégias específicas e adaptadas à realidade amazônica para enfrentar os períodos de seca severa e de grandes cheias dos rios, especialmente no contexto das equipes ribeirinhas e fluviais (eSFR e eSFF). Segundo ela, “essas estratégias são baseadas no planejamento sazonal das ações, organização de circuitos de atendimento e adaptação logística das equipes ribeirinhas e fluviais. As ações consideram a dinâmica dos rios para definição de rotas, acesso às comunidades e priorização das atividades, garantindo atendimento periódico mesmo em áreas de difícil acesso. Destaca-se ainda a adequação no transporte e armazenamento de insumos sensíveis, uso de estruturas de apoio com sistemas alternativos de energia e capacitação contínua das equipes. Além disso, a articulação intersetorial e a valorização dos saberes locais fortalecem a resposta do sistema de saúde frente aos desafios impostos pelas variações climáticas, contribuindo para a continuidade do cuidado e a integralidade da atenção à saúde das populações ribeirinhas.”
É nesse movimento de reconhecer especificidades territoriais e responder a elas com estratégias inovadoras que outras experiências pelo país também se destacam. Se, por um lado, contextos como o amazônico demandam soluções logísticas criativas para garantir o acesso, por outro, realidades urbanas e semiurbanas evidenciam a necessidade de qualificar o cuidado diante de condições crônicas e, muitas vezes, invisibilizadas. Nesse cenário, a experiência de Barreiras, na Bahia, amplia essa discussão ao deslocar o foco para o cuidado contínuo e humanizado de pessoas que convivem com a dor crônica.

Crédito: Experiência “No Banzeiro da Equidade: planejando caminhos, tecendo acesso no território líquido de Manicoré, Amazonas”. Manicoré (AM) / Enfermeiro Rodrigo Tuleman.
Barreiras/BA: Rede HumanizaFibro fortalece equidade no cuidado à fibromialgia e amplia acesso na Atenção Primária
No município de Barreiras, no oeste da Bahia, a experiência “Rede HumanizaFibro” tem se consolidado como uma estratégia inovadora de cuidado integral às pessoas com fibromialgia. Ao reconhecer que indivíduos acometidos por dores crônicas enfrentam não apenas desafios clínicos, mas também estigmas sociais e barreiras de acesso, a iniciativa reposiciona a Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada qualificada e resolutiva.
A fibromialgia, síndrome caracterizada por dor crônica generalizada, afeta cerca de 3.990 pessoas no município. Historicamente subdiagnosticada e cercada por desinformação, a condição expõe pacientes a situações de vulnerabilidade, como descrédito social, sofrimento psíquico e dificuldades no acesso ao cuidado especializado. Nesse contexto, a equidade, torna-se fundamental para garantir atenção integral e humanizada.
O médico Bruno Ramos, Coordenador da Rede HumanizaDor de Fibromialgia de Barreiras, reforça que a maior incidência é entre mulheres: “é preciso reconhecer que estamos tratando muito mais do que uma doença, muito mais do que uma síndrome fibromiálgica, tratamos a pessoa. O olhar está centrado na pessoa, e essas pessoas são, majoritariamente, mulheres: a mulher negra, suburbana, ribeirinha, na busca por reparação. Apesar das questões genéticas e hormonais, o principal fator de predisposição ainda são os fenômenos sociais nocivos. Em Barreiras, enfrentam-se a violência, os abusos domiciliares e desigualdades estruturais da sociedade, o que explica por que a condição se manifesta muito mais em mulheres. No município, dos 476 pacientes atendidos, apenas 10 são homens”.
Ele explica que a rede presta assistência integral à saúde de 476 pacientes com fibromialgia, com a entrada periódica de novos usuários a cada dois meses. No âmbito do planejamento municipal, a iniciativa está alinhada às metas estabelecidas no último Plano Plurianual, que prevê alcançar 15% da prevalência estimada da doença no município até 2029. Considerando uma população de aproximadamente 171 mil habitantes e uma estimativa de 3.994 pessoas com fibromialgia em Barreiras, a meta é atingir cerca de 600 pacientes acompanhados até 2029. “De novembro de 2025 até agora, 217 pacientes cadastrados na rede — número que se mantinha desde 2020 — não tinham tido melhora no diagnóstico, o que é muito ruim. De novembro de 2025 até este mês, saltamos para 476, com a entrada de pelo menos 30 novos pacientes a cada dois meses. Ainda este ano, vamos crescer e ultrapassar os 15% que esperamos alcançar até 2029”, afirma o gestor da experiência.
Criada a partir da articulação entre a Secretaria Municipal de Saúde, a associação de pacientes ABRACE e a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), a Rede HumanizaFibro promoveu uma reestruturação do modelo assistencial ao descentralizar diagnósticos e tratamentos, antes concentrados na atenção especializada. A APS passou a assumir protagonismo, reduzindo desigualdades no acesso e aproximando o cuidado dos territórios.
Entre as principais estratégias implementadas, destacam-se os ciclos contínuos de capacitação que já alcançaram mais de 400 profissionais da APS, fortalecendo a capacidade clínica das equipes para o manejo da fibromialgia. A iniciativa também aposta na articulação interdisciplinar, integrando serviços como o Programa HumanizaDor, Centros de Especialidades Odontológicas (CEO), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA), além de parcerias acadêmicas que ampliam a qualificação do cuidado.
Outro diferencial é o uso de tecnologias de teleatendimento e ferramentas de avaliação musculoesquelética, que facilitam o acompanhamento contínuo dos pacientes, especialmente aqueles em situação de maior vulnerabilidade territorial. Paralelamente, ações de educação em saúde como rodas de conversa e encontros comunitários, atuam no enfrentamento dos estigmas associados à doença, promovendo acolhimento e fortalecimento de vínculos entre usuários e profissionais.
Ele reforça que a misoginia e a permanência de uma sociedade ainda patriarcal fazem com que as mulheres enfrentem diversas inequidades, principalmente no acesso à saúde, à educação e à ascensão pessoal e profissional. “Somam-se a isso a violência urbana e social, fatores fortíssimos para a predisposição ao desenvolvimento da fibromialgia. Buscamos atuar a partir de uma abordagem não médico-centrada, tendo a APS como eixo de uma abordagem biopsicossocioespiritual. Avaliamos não apenas os exames, mas também os aspectos psicológicos, sociais e as realidades em que essas mulheres estão inseridas. Trabalhamos com a perspectiva de reparação estrutural, reorganização e empoderamento feminino, na busca pela retomada de propósito — não apenas no enfrentamento diário dentro de casa, mas também nas estruturas profissionais, nos salários e nas remunerações. Caminhamos nesse sentido, olhando de frente para esses determinantes e condicionantes sociais, com foco na reparação e no empoderamento feminino.”
Segundo os atores da experiência, os resultados evidenciam o impacto da estratégia na promoção da equidade. Houve ampliação do diagnóstico precoce, com redução de até 90% nos encaminhamentos à reumatologia, além de melhorias significativas na qualidade de vida dos pacientes. O fortalecimento do vínculo entre equipes de saúde e população também contribuiu para maior adesão ao tratamento e continuidade do cuidado. Segundo o médico, este é “um trabalho muito pujante de enfrentamento dos desafios da fibromialgia, que são o subdiagnóstico e o diagnóstico tardio. E o gargalo do acesso à promoção da saúde que a gente tinha era muito focado na atenção especializada, centralizada, especialmente no reumatologista. Nesse ordenamento do cuidado, seguindo o que a Organização Mundial da Saúde, o próprio Mistério da Saúde, a partir do PCDT, propõem, assim como a Associação Internacional para o Estudo da Dor, a fibromialgia não pode mais ser encarada como doença reumática, e sim como doença de dor crônica. Sai do escopo da reumatologia e passa a ser encarada como uma síndrome multidimensional, mas a orientação é que seja manejada na atenção primária. Barreiras foi a primeira cidade no Brasil a propor esse reordenamento e fazê-lo de fato, e isso já está na prática. Enfrentando as demandas reprimidas, esse subdiagnóstico e o diagnóstico tardio, que era dado, em média, no mundo, em seis anos e meio — pelo menos —, hoje, em Barreiras, temos diagnóstico em seis meses”.
Apesar dos avanços, desafios persistem. A superação da desconfiança histórica em relação à APS, a alta rotatividade de profissionais e a necessidade de garantir a continuidade das capacitações e parcerias intersetoriais ainda demandam atenção da gestão. A trajetória da Rede HumanizaFibro reforça o papel da APS como vetor de transformação social, evidenciando que o cuidado em saúde vai além do atendimento clínico. Ao incorporar a equidade como princípio orientador e reconhecer as múltiplas dimensões da vulnerabilidade, a experiência demonstra que é possível construir respostas mais justas, sensíveis e eficazes, consolidando o SUS como um espaço de promoção da dignidade e da justiça social.
A Rede ColaboraAPS é uma iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Criada com o propósito de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), a Rede busca ampliar processos de aprendizagem colaborativa, promover intercâmbios entre equipes e incentivar a cooperação horizontal entre diferentes territórios e experiências no SUS.
A iniciativa fomenta a circulação de saberes entre territórios, promove intercâmbios entre equipes, impulsiona a produção de conhecimento e incentiva processos de aprendizagem colaborativa. Nos próximos meses, as ações da Rede seguem com intercâmbios virtuais e presenciais, além de processos de sistematização e compartilhamento de aprendizados.

Crédito: Experiência “Rede HumanizaFibro”. Barreiras (BA).
Acompanhe os conteúdos das experiências clicando nos links:
BARREIRAS (BA): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/a-rede-de-atencao-a-fibromialgia-humanizafibro-barreiras/
ITAPETININGA (SP): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/vigilancia-ambiental-e-cuidado-integral-em-territorios-rurais-experiencia-intersetorial-da-aps-em-itapetininga-sp/
SALVADOR (BA): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/formacao-para-equidade-a-educacao-antirracista-da-esps-da-aps-de-salvador/
SÃO CRISTÓVÃO (SE): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/fortalecendo-a-promocao-da-saude-incentivo-as-praticas-corporais-na-atencao-primaria-prisional/
