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Rede ColaboraAPS evidencia experiências que fortalecem a saúde mental na Atenção Primária no SUS 

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Por: Manoelli Santos

A Rede ColaboraAPS atua na identificação, sistematização e disseminação de experiências inovadoras no Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo a troca de saberes entre territórios e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS). No campo da saúde mental, a iniciativa tem evidenciado como práticas desenvolvidas em diferentes regiões do país podem qualificar o cuidado, ampliando o acesso e a capacidade de resposta dos serviços, especialmente diante de demandas complexas, como a prevenção ao suicídio.  

Para Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador-geral da Rede ColaboraAPS, compreender onde e como os sofrimentos se manifestam é fundamental para organizar práticas de cuidado mais efetivas, integradas e próximas da realidade dos usuários. “A maior parte dos problemas de saúde mental, sobretudo os chamados transtornos leves e moderados, é vivenciada por pessoas inseridas nos microterritórios atendidos pelas Unidades Básicas de Saúde, onde atuam equipes multiprofissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), como as equipes de Saúde da Família e seus dispositivos de apoio e retaguarda. Nesse contexto, o enfrentamento das questões de saúde mental, além de exigir ações mais amplas voltadas às condições e modos de vida e à redução dos excessos da medicalização, depende fortemente do acesso, do manejo e do cuidado ofertados no âmbito da APS. Para isso, é fundamental contar com profissionais qualificados e com condições adequadas de trabalho. Também é essencial garantir a oferta de práticas de cuidado tanto individuais quanto coletivas, promover a articulação com atores comunitários e outros setores e assegurar o suporte e o compartilhamento do cuidado com os diferentes dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial.” 

É nesse contexto que a iniciativa Maringá, no Paraná, reposiciona a Atenção Primária à Saúde como eixo central do cuidado em saúde mental. Com uma estratégia territorializada, o município ampliou a qualificação dos processos de trabalho e o engajamento das equipes. 

Maringá fortalece cuidado em saúde mental com o projeto “Novos Rumos” 

A cidade de Maringá tem se destacado ao reposicionar o cuidado em saúde mental a partir da Atenção Primária à Saúde (APS). A experiência, desenvolvida por meio do “Projeto Novos Rumos – Fortalecimento do Cuidado em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde de Maringá/PR”, integrada à Rede ColaboraAPS, amplia o acesso e fortalece práticas territoriais. Em um contexto de aumento das demandas em saúde mental no Brasil, intensificado após a pandemia de Covid-19, a APS tem assumido um papel estratégico no acolhimento e no acompanhamento do sofrimento psíquico. Em Maringá, o projeto surge em 2023 como resposta ao agravamento dessas demandas no período pós-pandêmico e ao fechamento de um hospital psiquiátrico local. Desde então, a iniciativa se consolida como uma estratégia estruturante na Rede de Atenção Psicossocial. 

A proposta parte do pressuposto que o sofrimento psíquico se manifesta nas demandas cotidianas, seja em consultas clínicas, visitas domiciliares ou questões sociais. Isto levou o município a investir na qualificação das equipes, ampliando o papel da saúde mental no cuidado integral. Com isso, a APS se fortalece como porta de entrada e coordenadora do cuidado, aumentando a resolutividade e prevenindo a cronificação dos casos. 

A reorganização do trabalho das psicólogas e psicólogos na APS também foi decisiva para os avanços. A criação de agendas padronizadas, registros sistematizados e protocolos específicos trouxe mais consistência e visibilidade às ações. Paralelamente, o investimento em educação permanente, com capacitações, oficinas e rodas de conversa, ampliou a habilidade das equipes para lidar com o sofrimento psíquico de forma qualificada e sensível. 

Para Leandro Carmo, integrante da equipe gestora da experiência, a criação do Protocolo Municipal de Atenção à Saúde Mental na Atenção Primária, foi um dos principais caminhos para lidar com o aumento da demanda e tornar o cotidiano da UBS mais organizado. “Esse foi um avanço significativo, pois conseguimos estabelecer, de forma articulada com a gestão de saúde mental, que o cuidado em saúde mental não é responsabilidade exclusiva do psicólogo”, explica.  

A articulação entre os diferentes pontos da rede garante continuidade do cuidado e evita fragmentações, permitindo um acompanhamento adequado à complexidade de cada caso. A criação de espaços de cogestão e o fortalecimento do apoio institucional em saúde mental também contribuíram para aproximar equipes e gestão, tornando o cuidado mais articulado. 

Para o gestor, o protocolo definiu com clareza as atribuições de todos os profissionais da Atenção Primária à Saúde nesse cuidado, ampliando a corresponsabilização das equipes. Neste sentido, junto da Estratégia de Saúde da Família, o acolhimento em saúde mental deve seguir a mesma lógica dos demais acolhimentos realizados na unidade. Assim, todas as demandas que chegam à UBS passam a ser acolhidas integralmente, incluindo as relacionadas à saúde mental. O protocolo orienta que o usuário seja, além de tudo, escutado em sua queixa, possibilitando a construção de intervenções, especialmente psicossociais, que não se limitem ao encaminhamento à psicologia. 

Nesse contexto, foi construída uma agenda padrão com o objetivo de sistematizar e qualificar esse processo de trabalho. A proposta resultou em uma organização flexível, na qual a agenda do psicólogo deve ser estruturada em torno de quatro eixos fundamentais. O primeiro eixo refere-se ao atendimento específico, ou seja, às atividades realizadas individualmente pelo psicólogo na unidade. O segundo eixo diz respeito ao atendimento compartilhado, desenvolvido em conjunto com a equipe, incluindo estratégias de matriciamento, como discussão de casos, interconsultas, consultas conjuntas e grupos. O terceiro eixo envolve ações no território, com articulação junto a equipamentos e serviços, como CRAS, escolas e reuniões de rede, garantindo que o profissional reserve tempo para refletir e atuar sobre as demandas territoriais. Por fim, o quarto eixo contempla outras atividades, como a elaboração de documentos, a resposta a demandas judiciais e ações de educação permanente. Dessa forma, o psicólogo tem autonomia para organizar sua agenda de acordo com a realidade do território e da equipe, desde que os quatro eixos estejam contemplados, o que assegura um processo de trabalho mais estruturado, integrado e resolutivo. 

Leandro reforça a importância da articulação consistente com diferentes secretarias, como Educação, Cultura e Assistência Social, o que garante um diálogo fluido e a construção de ações integradas. “Na prática, isso tem possibilitado o desenvolvimento de iniciativas importantes para ampliar o cuidado em saúde mental, indo além do campo restrito da saúde e da atuação exclusiva do psicólogo, e envolvendo mais atores nesse processo. Nesse sentido, foram realizadas diversas ações territoriais nas UBS, em parceria com os CRAS e escolas municipais, fortalecendo intervenções diretamente nos territórios. Também se destacam as Semanas Municipais de Saúde Mental, construídas de forma intersetorial, que promoveram debates qualificados com a participação da educação, assistência social e outros equipamentos da rede”. 

Para o gestor, um ponto especialmente relevante foi a parceria com a área da cultura, que possibilitou a realização de atividades como teatro, dança e cinema, todas articuladas a temas relacionados à saúde mental. Essas ações não apenas abordaram o tema de forma acessível, como também abriram espaço para diálogo e reflexão com o público. Além disso, houve uma importante iniciativa com as bibliotecas, com contações de histórias temáticas. “Em parceria com a Secretaria de Educação, foi possível levar crianças da rede municipal para participar dessas atividades, culminando na criação de espaços tematizados”. 

A experiência demonstra o esforço em deslocar a saúde mental para além do setor saúde, ocupando praças e o território de modo geral. Ao ampliar os espaços e os sujeitos envolvidos, fortalece-se a corresponsabilização pelo cuidado, aumentando a capacidade coletiva de acolhimento e promoção da saúde mental. Na prática, o Projeto “Novos Rumos” se traduz em ações como escuta qualificada, acompanhamento longitudinal e atuação integrada das equipes multiprofissionais. Médicos, enfermeiros, psicólogos e agentes comunitários de saúde passaram a compartilhar responsabilidades, fortalecendo a capacidade de resposta das Unidades Básicas de Saúde. Para os atores da experiência, os resultados refletem esse avanço com o aumento de 20% nos registros de atendimentos em psicologia, expansão de atividades como escutas iniciais, grupos terapêuticos e busca ativa, além da incorporação da saúde mental na rotina de 45% das equipes da Estratégia Saúde da Família do município, em 2024. 

Outro destaque é o fortalecimento do cuidado territorializado. Ao compreender o território como um espaço dinâmico, atravessado por relações sociais, culturais e afetivas, o projeto amplia suas ações para além dos serviços de saúde.  Nesse cenário, os agentes comunitários de saúde desempenham papel fundamental ao identificar precocemente situações de sofrimento e fortalecer vínculos com as famílias. Para o gestor, essa presença mais próxima tem fortalecido o cuidado em saúde mental, tornando-o mais qualificado e ampliando o suporte às equipes, que passam a se sentir mais amparadas.  

Esse processo tem gerado impactos importantes “as equipes se sentem mais seguras, corresponsáveis e capacitadas para atuar. Observa-se, inclusive, uma maior abertura para a criação de intervenções psicossociais no território. Hoje, já é possível identificar grupos conduzidos por enfermeiros e agentes comunitários de saúde, com o apoio da psicologia, ampliando as formas de acolhimento e cuidado aos usuários em sofrimento”, afirma Leandro.  

Neste contexto, ao refletir sobre os desafios e caminhos para o fortalecimento do cuidado em saúde mental no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador-geral da Rede ColaboraAPS, destaca a centralidade do território e o papel estratégico das equipes multiprofissionais na resposta às demandas da população. Segundo ele, compreender onde e como esses sofrimentos se manifestam é fundamental para organizar práticas de cuidado mais efetivas, integradas e próximas da realidade dos usuários. “A maior parte dos problemas de saúde mental, sobretudo os chamados transtornos leves e moderados, é vivenciada por pessoas inseridas nos microterritórios atendidos pelas Unidades Básicas de Saúde, onde atuam equipes multiprofissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), como as equipes de Saúde da Família e seus dispositivos de apoio e retaguarda. Nesse contexto, o enfrentamento das questões de saúde mental, além de exigir ações mais amplas voltadas às condições e modos de vida e à redução dos excessos da medicalização, depende fortemente do acesso, do manejo e do cuidado ofertados no âmbito da APS. Para isso, é fundamental contar com profissionais qualificados e com condições adequadas de trabalho. Também é essencial garantir a oferta de práticas de cuidado tanto individuais quanto coletivas, promover a articulação com atores comunitários e outros setores e assegurar o suporte e o compartilhamento do cuidado com os diferentes dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial.” 

Com baixo custo, alta adesão das equipes e resultados consistentes, o Projeto “Novos Rumos” demonstra que investir na Atenção Primária é um caminho estratégico para qualificar a saúde mental no SUS. Os resultados de Maringá reforçam que o fortalecimento da Atenção Primária, aliado à qualificação dos processos de trabalho e ao engajamento das equipes, é um caminho consistente para enfrentar os desafios da saúde mental no SUS. Nessa mesma direção, outras experiências vêm ampliando e aprofundando esse movimento em diferentes contextos, como em Florianópolis, Santa Catarina, onde se destaca uma iniciativa que também investe na qualificação do cuidado e no protagonismo das equipes na Atenção Primária. 

Crédito: Projeto Novos Rumos – Fortalecimento do Cuidado em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde de Maringá/PR.

Protocolo em Florianópolis fortalece protagonismo da enfermagem e qualifica cuidado em saúde mental na Atenção Primária 

A Rede ColaboraAPS segue identificando e disseminando experiências inovadoras que qualificam o cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre elas, destaca-se a experiência de Florianópolis com o “Protocolo de Enfermagem em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde (APS): inovação clínica para o cuidado psicossocial”, desenvolvida em resposta ao aumento das demandas no período pós-pandemia e à necessidade de fortalecer a atuação das equipes no território. 

O protocolo posiciona a enfermagem como protagonista no cuidado em saúde mental, ampliando sua autonomia e capacidade de resposta diante de situações que vão desde transtornos mentais comuns até crises, uso problemático de álcool e outras drogas e impactos dos determinantes psicossociais. A proposta parte do reconhecimento de que o cuidado em saúde mental exige abordagens que ultrapassem o modelo biomédico tradicional, fortalecendo a clínica ampliada ao valorizar a escuta qualificada, o vínculo e a construção compartilhada do cuidado, elementos centrais para a atenção psicossocial na APS. 

De acordo com Ana Gomes, integrante da equipe gestora da experiência, o protocolo foi estruturado para reconhecer o sofrimento psíquico como um fenômeno multifatorial, fortemente influenciado pelos determinantes sociais da saúde. “Ele orienta e viabiliza a avaliação clínica ampliada do enfermeiro, considerando não apenas sinais e sintomas, mas também aspectos relacionados à vulnerabilidade social, vínculos familiares, exposição à violência, uso de substâncias e condições de vida no território. Incentiva a escuta qualificada e o uso de instrumentos que auxiliam na identificação dessas vulnerabilidades, articulando o cuidado com a rede intersetorial, como assistência social, educação e proteção social”, explica. 

Dessa forma, o cuidado não se restringe ao uso de medicamentos, mas prioriza intervenções psicossociais, o fortalecimento de vínculos, a construção de projetos terapêuticos singulares e compartilhados, além do acompanhamento longitudinal pelas equipes da Atenção Primária. Esse modelo contribui para uma atenção mais resolutiva e alinhada às realidades dos territórios, ao valorizar a APS como coordenadora do cuidado em saúde mental. “A enfermagem passa a atuar com mais segurança na identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, na estratificação de risco e na condução de casos complexos, incluindo situações como ideação suicida, ansiedade e uso abusivo de álcool. Esse avanço contribui para ampliar o acesso ao cuidado e reduzir encaminhamentos desnecessários, fortalecendo a resolutividade no próprio território”, destaca a gestora. 

Segundo atores da experiência, ao mesmo tempo, a iniciativa reforça a importância da articulação com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), organizando fluxos e fortalecendo a comunicação entre a APS e serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), garantindo maior continuidade e integralidade do cuidado. Eles reforçam que a criação do protocolo surgiu da necessidade, intensificada no período pós-pandêmico, de qualificar e padronizar a atuação da enfermagem diante da crescente demanda por cuidado em saúde mental na Atenção Primária. Observava-se que muitos profissionais enfrentavam insegurança clínica diante de situações complexas, especialmente aquelas relacionadas ao sofrimento psíquico e ao uso de álcool e outras drogas. Nesse contexto, o protocolo foi desenvolvido para oferecer respaldo técnico e científico à prática clínica do enfermeiro, ampliando a capacidade resolutiva da enfermagem e fortalecendo sua autonomia profissional. Ao definir fluxos, condutas e critérios clínicos, o documento contribui para que o enfermeiro atue com maior segurança, dentro dos limites legais e éticos da profissão, além de reafirmar seu papel estratégico como protagonista no cuidado em saúde mental na APS, ampliando o acesso e qualificando o cuidado ofertado à população. 

Na prática clínica, o protocolo orienta o rastreamento, a identificação precoce de sinais de alerta, a classificação do risco e a definição de condutas seguras e oportunas. Nos casos de ideação suicida, por exemplo, orienta a realização de avaliação estruturada do risco, a escuta acolhedora, o fortalecimento de vínculos e a ativação de fluxos prioritários na Rede de Atenção Psicossocial. Já nos casos relacionados ao uso abusivo de substâncias, prevê-se intervenções breves, aconselhamento e acompanhamento longitudinal, com apoio matricial e articulação com serviços especializados. Esse suporte técnico contribui para reduzir a insegurança profissional, qualificar as decisões clínicas e garantir um cuidado ético, seguro e baseado em evidências. 

Atores da experiência explicam que a construção do protocolo foi orientada por um processo colaborativo que envolveu revisão científica, análise das práticas locais e escuta das equipes, resultando na sistematização de 184 diagnósticos de enfermagem, sendo 13 mais frequentes na rotina dos serviços. A organização padroniza a linguagem clínica, permitindo que o cuidado seja planejado de forma mais individualizada e coerente com a realidade de cada pessoa. 

Nesse contexto, de acordo com os atores da experiência, a utilização de uma terminologia própria da enfermagem fortalece a segurança técnica e profissional do enfermeiro, especialmente à luz da Resolução COFEN nº 736/2024, que dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem e respalda formalmente o uso de diagnósticos e intervenções como parte essencial da prática profissional. Esse respaldo contribui para maior segurança na tomada de decisão clínica, fortalece a autonomia profissional e qualifica a documentação do cuidado. Outro aspecto relevante é a possibilidade de maior rastreabilidade das ações realizadas, favorecendo a continuidade do cuidado entre diferentes profissionais e níveis de atenção, além de contribuir para o monitoramento dos resultados e a qualificação dos registros clínicos. 

A implementação da experiência também evidencia o papel estratégico da educação permanente em saúde na transformação do cuidado. Foram realizados treinamentos presenciais e ações contínuas de qualificação, promovendo espaços de troca e construção coletiva entre os profissionais. Entre as estratégias, destaca-se o “Café Floripa”, uma adaptação local da metodologia Café Mundial (World Café), utilizada para promover diálogos estruturados e participação coletiva. A iniciativa, conduzida pela Comissão Permanente de Sistematização da Assistência de Florianópolis (CSAE), garante a escuta qualificada dos profissionais e a participação ativa de diferentes atores envolvidos no cuidado. Ao favorecer a troca de experiências e a construção coletiva, essas metodologias contribuíram para que o protocolo fosse desenvolvido de forma alinhada às necessidades reais dos territórios e da prática cotidiana, assegurando sua aplicabilidade no contexto da Atenção Primária.  

Para a visualização integrada dos dados assistenciais e o acompanhamento sistemático de indicadores relacionados ao uso do protocolo, foi realizada uma criação de um painel de monitoramento estruturado em Business Intelligence (BI). Essa estratégia possibilita a visualização integrada dos dados assistenciais e o acompanhamento sistemático de indicadores relacionados ao uso do protocolo. A ferramenta contribui para maior transparência das informações, apoio à tomada de decisão e identificação de padrões assistenciais ao longo do tempo. Paralelamente, o município tem investido na qualificação dos registros clínicos e na construção de uma cultura institucional orientada ao uso de dados para a gestão do cuidado, permitindo identificar avanços, reconhecer desafios e ajustar estratégias de implementação. 

A experiência de Florianópolis evidencia caminhos possíveis para o fortalecimento da saúde mental na Atenção Primária. Ao investir na autonomia da enfermagem, na integração em rede e na qualificação contínua das equipes, o município reafirma a APS como espaço estratégico para o cuidado em saúde mental, promovendo respostas mais resolutivas, humanas e conectadas com a realidade dos territórios. 

Crédito: Protocolo de Enfermagem em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde (APS): inovação clínica para o cuidado psicossocial.

Rede Colabora APS destaca experiência do DF que integra saúde mental, agroecologia e cuidado comunitário 

Uma experiência inovadora do SUS do Distrito Federal vem ressignificando o papel da Atenção Primária à Saúde (APS) nos territórios. “A Rede de hortos agroflorestais medicinais biodinâmicos (RHAMB) na secretaria de estado de saúde do distrito federal (SES/DF)” criada em 2018, nasce da integração entre APS, Vigilância em Saúde e Assistência Farmacêutica, com o objetivo de implantar hortos comunitários em unidades de saúde, escolas e espaços públicos. Mais do que áreas de cultivo, esses espaços vêm sendo reconhecidos como tecnologias sociais de cuidado, capazes de promover bem-estar, fortalecer vínculos e produzir saúde a partir da relação entre pessoas, território e natureza. 

A experiência tem início em uma Unidade Básica de Saúde do Distrito Federal, a partir de um diagnóstico situacional que evidenciou degradação ambiental, insegurança alimentar e vulnerabilidades sociais e emocionais da população. A resposta construída foi coletiva, com participação ativa da comunidade, profissionais de saúde e parceiros institucionais.  Foram realizadas ações de recuperação do solo, implantação de sistemas agroflorestais biodinâmicos e criação de espaços de convivência. 

Nesse contexto, a saúde mental emerge como eixo transversal e estruturante da iniciativa. Os hortos passam a funcionar como espaços terapêuticos abertos, onde o cuidado se dá no fazer coletivo, no cultivo da terra, na troca de saberes e na construção de vínculos. Atividades como plantio, manejo, colheita e rodas de conversa favorecem processos de escuta, acolhimento e pertencimento, contribuindo para a redução do sofrimento psíquico e para o fortalecimento da autonomia dos sujeitos. 

Ao deslocar o cuidado em saúde mental do espaço exclusivamente clínico para o território, a RHAMB dialoga com os princípios da atenção psicossocial, valorizando práticas comunitárias, interdisciplinares e culturalmente situadas. Trata-se de uma abordagem que reconhece os determinantes sociais e ambientais da saúde, ampliando as possibilidades de intervenção e cuidado. 

A educação permanente é outro pilar central da estratégia. Por meio do curso de Aperfeiçoamento em Hortos Agroflorestais Medicinais Biodinâmicos (HAMB), profissionais da saúde são formados para atuar de maneira integrada, articulando conhecimentos técnicos e saberes populares. Essa formação contribui para transformar práticas de cuidado e fortalecer o papel da APS como coordenadora do cuidado no território. 

As parcerias com instituições como a Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal e a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil ampliam a capacidade de implementação e sustentabilidade da rede, garantindo apoio técnico, institucional e insumos. Essa articulação intersetorial é fundamental para enfrentar desafios complexos, como as mudanças climáticas, a insegurança alimentar e o adoecimento mental. 

Os resultados alcançados evidenciam a potência da iniciativa. Segundo atores da experiência, a institucionalização da RHAMB, por meio da Portaria nº 137/2025, marca um avanço importante ao garantir sua continuidade como política pública. A iniciativa passa a integrar de forma estruturada as ações da SES-DF, fortalecendo a APS como espaço estratégico para a promoção da saúde integral. 

Outro aspecto relevante é a interface com as Farmácias Vivas, que conecta o cultivo agroecológico à produção de fitoterápicos no SUS. Essa integração valoriza o uso seguro de plantas medicinais e amplia o acesso a práticas integrativas, contribuindo também para o cuidado em saúde mental, especialmente em contextos em que terapias complementares têm papel importante no alívio do sofrimento e na promoção do bem-estar. 

A experiência também dialoga com agendas contemporâneas, como a saúde planetária e a justiça socioambiental, ao reconhecer que o cuidado com o meio ambiente está diretamente relacionado ao cuidado com a vida e com a saúde mental das populações. Em territórios marcados por desigualdades, iniciativas como a RHAMB produzem não apenas alimentos e medicamentos, mas também sentido, pertencimento e esperança. 

Para os atores da experiência, entre os desafios, destacam-se a necessidade de ampliar o engajamento comunitário de forma contínua e de indicadores que capturem, de maneira mais sensível, os impactos da iniciativa na saúde mental e na qualidade de vida da população. Ainda assim, a RHAMB se afirma como uma inovação no SUS, ao integrar cuidado ambiental, social e subjetivo. 

Ao cultivar a terra, a iniciativa cultiva também vínculos, afetos e possibilidades de existência. Em um cenário marcado por crises múltiplas (sanitárias, sociais, política, econômica, climáticas), experiências como essa mostram que a saúde mental pode florescer no território, quando o cuidado é construído de forma coletiva, intersetorial e enraizada na vida cotidiana. 

Neste sentido, se insere a experiência de Belo Horizonte, Minas Gerais, traduzindo, no campo da Atenção Primária à Saúde, essa mesma lógica de cultivo, neste caso, voltada ao desenvolvimento infantil. Diante do aumento das demandas relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista no SUS, a iniciativa reafirma o potencial da APS como espaço de produção de cuidado integral, contínuo e territorializado, ao investir na capacitação de cuidadores por meio de uma metodologia coletiva, sensível às realidades locais e capaz de ampliar vínculos, promover inclusão e sustentar novas formas de existir e cuidar. 

Crédito: Rede de hortos agroflorestais medicinais biodinâmicos (RHAMB) na Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES/DF).

Semeando conhecimento, colhendo inclusão: Belo Horizonte fortalece o cuidado em saúde mental infantil na APS com metodologia inovadora para o TEA 

Em um cenário de aumento das demandas por saúde mental infantil no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), a Atenção Primária à Saúde (APS) busca ampliar sua capacidade de resposta. É nesse contexto que se destaca a experiência “Belo Horizonte/MG – Semeando conhecimento, colhendo inclusão: uma metodologia coletiva e replicável na APS para capacitar cuidadores no cuidado ao TEA”, uma iniciativa que reposiciona a APS como referência no cuidado integral, contínuo e territorializado. 

A experiência surgiu da realidade vivida nas unidades básicas de saúde, onde profissionais passaram a relatar insegurança no manejo dos casos, falta de formação específica e dificuldade em articular fluxos de cuidado mais resolutivos. Ao mesmo tempo, famílias de crianças com suspeita ou diagnóstico de TEA enfrentavam barreiras de acesso, desinformação e pouca integração entre os serviços da rede. O resultado era um cuidado fragmentado, sobrecarga das equipes e sofrimento ampliado para usuários e cuidadores. Antes, as crianças permaneciam em filas aguardando atendimento ambulatorial especializado, agora, as equipes são capacitadas e empoderadas para iniciar o atendimento e o acolhimento na própria atenção primária. Com isso, há um resgate da agenda básica e maior participação das equipes multiprofissionais. 

Nesse contexto, em 2025, mais de 30 grupos voltados a pais, cuidadores e crianças neurodivergentes foram implementados, consolidando um acervo pedagógico estruturado e acessível. Entre os principais avanços estão o aumento da segurança dos profissionais, a qualificação das práticas em saúde mental, o fortalecimento do vínculo entre equipes e famílias e a redução da fragmentação nos fluxos assistenciais. 

Diante desse cenário, a proposta da experiência foi estruturar uma metodologia coletiva, acessível e replicável que qualificasse o cuidado na APS e, ao mesmo tempo, reconhecesse o papel central das famílias nesse processo. Além de capacitar profissionais, a iniciativa aposta no empoderamento dos cuidadores como estratégia fundamental para o fortalecimento do cuidado em saúde mental no território. o projeto busca fortalecer a coordenação do cuidado em rede. Isso ocorre por meio do matriciamento com a atenção especializada, especialmente com a neuropediatria, ampliando a capacidade de resposta da APS. Mesmo quando há necessidade de encaminhamento, garante-se o retorno da criança ao território, assegurando a continuidade do cuidado e o acompanhamento pelas equipes de referência. 

A gestora da experiência, Paula Lucchesi, explica que a iniciativa conta atualmente com aproximadamente 35 grupos de abordagem parental em plena atividade, distribuídos pelo município de Belo Horizonte. “Esse arranjo assistencial permite que a expertise dos 300 profissionais já qualificados para realizarem a triagem na APS forneça suporte imediato e qualificado a uma parcela significativa da demanda territorial, garantindo que o cuidado ao TEA aconteça de forma descentralizada nos 153 Centros de Saúde”. Ela também explica que a “meta de expansão para o próximo ciclo foca na consolidação e universalização desta metodologia em todos os polos de e-Multi, Núcleo de Apoio a Saúde da Família, visando assegurar que o aumento da oferta de atividades coletivas acompanhe o crescimento da demanda e fortaleça a APS como a principal coordenadora do cuidado”.  

No lugar de ações pontuais, a formação passa a ser incorporada ao cotidiano como um pilar das equipes, promovendo aprendizado contínuo, troca de saberes e construção coletiva de soluções. Capacitações, alinhamentos técnicos e o matriciamento em saúde mental, com apoio especializado, sustentam essa estratégia, garantindo maior segurança clínica e qualificação das práticas. Outro pilar fundamental é o fortalecimento do rastreio precoce de casos suspeitos de TEA na APS, ampliando a capacidade de identificação e intervenção oportuna. A partir desse movimento, a experiência avança na criação de espaços coletivos de cuidado, como os Grupos de Orientação e Acolhimento Parental, que se tornam dispositivos estratégicos para o cuidado em saúde mental. 

Foram selecionados 12 módulos pedagógicos aplicados nos grupos de acolhimento para atender às necessidades das famílias e profissionais. Estes módulos foram definidos a partir de uma revisão da literatura científica e fundamentados nas reais demandas que chegam diariamente às Equipes de Saúde da Família e e-Multi. O objetivo foi criar um material customizável que apoiasse profissionais com agendas sobrecarregadas, oferecendo suporte técnico sem anular a autonomia de cada equipe. São aplicados de forma cíclica nas unidades, dessa forma amplia-se a resolutividade da APS na abordagem aos familiares de crianças com TEA, adaptando o conteúdo à realidade.  

A gestora ressalta que a iniciativa vai além de espaços informativos, “configuram-se como territórios de cuidado, onde vínculos são fortalecidos e o sofrimento pode ser compartilhado e ressignificado. A lógica coletiva amplia o alcance da APS, otimiza o tempo das equipes e promove maior resolutividade”. 

Um outro elemento-chave é a flexibilidade da metodologia. O modelo é participativo e adaptável às diferentes realidades dos territórios, o que favorece sua sustentabilidade e potencial de expansão. Ao longo do processo, novas frentes foram incorporadas, como a construção de uma Linha de Cuidado Municipal para pessoas com suspeita e diagnóstico de TEA, o desenvolvimento de cartilhas digitais para famílias e o fortalecimento de ações intersetoriais, envolvendo diferentes políticas públicas. 

A articulação intersetorial é peça-chave para evitar a fragmentação do cuidado, sendo a parceria com a Secretaria de Educação o maior exemplo através do Programa Saúde na Escola (PSE) e, especificamente, do Projeto Iluminar. Nesta estratégia, fonoaudiólogos do e-Multi atuam no ambiente escolar junto aos docentes para promover o desenvolvimento infantil e habilidades preditoras da alfabetização. Um diferencial prático é o matriciamento com a Neuropediatra, que realiza avaliações compartilhadas nos Centros de Reabilitação, permitindo discussões de casos em tempo real e o fechamento de diagnósticos de forma conjunta. Esse arranjo rompe com a lógica do encaminhamento tradicional e garante que a APS mantenha a coordenação do cuidado e a corresponsabilização pelo usuário. 

Segundo a gestora da experiência, a avaliação da efetividade e da qualidade do cuidado ofertado sustenta-se em um monitoramento qualitativo contínuo, pautado na percepção dos atores envolvidos e na análise da resolutividade territorial. “O aumento da confiança das famílias é evidenciado pelo fortalecimento do vínculo com as equipes de referência e pelos relatos de maior segurança no manejo dos desafios diários após as orientações qualificadas. No âmbito técnico, a qualidade é garantida pelo domínio e aplicação de instrumentos padronizados para o rastreio do TEA por parte dos profissionais qualificados, assegurando um parâmetro clínico rigoroso na identificação de casos”, explica.  A transparência dos fluxos assistenciais e o aumento do letramento em saúde, impulsionados pela Cartilha Digital e pelo Protocolo Assistencial, que embora não façam parte diretamente da experiência, podem ser compreendidos como indicadores práticos de uma assistência mais integrada, humana e menos fragmentada para a comunidade. 

Com baixo custo e possibilidade de replicabilidade, a experiência demonstra que é possível transformar desafios em oportunidades de inovação no SUS. Ao fortalecer a APS como coordenadora do cuidado e investir na formação dos profissionais e no protagonismo das famílias, a iniciativa aponta caminhos concretos para uma saúde mental mais inclusiva, resolutiva e humanizada. 

A centralidade da APS possibilita a substituição da “espera passiva”, rompendo com a lógica de apenas aguardar por especialistas e oferecendo suporte qualificado no território. Ao empoderar o núcleo familiar, o foco deixa de ser apenas a terapia individual e passa a ser o treinamento e o acolhimento dos cuidadores, o que gera maior sustentabilidade do cuidado. Fortalecer o vínculo territorial, coordenação pela APS garante que as decisões clínicas sejam tomadas por quem conhece a realidade da família, promovendo um acompanhamento longitudinal e integral. Além disso, a potência dos grupos de abordagem parental reside na criação de laços que transcendem o suporte técnico, consolidando uma rede de apoio sinérgica e autossustentável no território. Nesse espaço de troca, a experiência compartilhada por um cuidador torna-se a solução para o desafio do outro, permitindo que o saber coletivo ultrapasse os muros do Centro de Saúde e se perpetue como uma ferramenta de autonomia e resiliência no cotidiano das famílias. 

Mais do que uma resposta local, trata-se de uma estratégia com potencial de inspirar outros territórios, reafirmando que o cuidado em saúde mental começa no território, se constrói em rede e se fortalece no encontro entre saberes técnicos e experiências de vida. 

Crédito: Belo Horizonte/MG – Semeando conhecimento, colhendo inclusão: uma metodologia coletiva e replicável na APS para capacitar cuidadores no cuidado ao TEA.

Sobral coloca a Atenção Primária na linha de frente da prevenção ao suicídio 

Sobral ampliou a capacidade de identificar riscos, qualificar o acompanhamento dos usuários e fortalecer a rede pública de saúde mental no Sistema Único de Saúde. Diante do aumento das demandas psicossociais e da necessidade de respostas mais articuladas, o município estruturou a experiência “Territórios do cuidado: Sobral transforma a Atenção Primária em linha de frente na prevenção ao suicídio”. A iniciativa parte do reconhecimento de que o suicídio é um fenômeno multifatorial, atravessado por questões subjetivas, bem como por dimensões sociais, culturais e econômicas. Antes da implementação da experiência, a fragmentação das ações e a subnotificação dos casos dificultavam respostas efetivas, comprometendo tanto o acompanhamento dos usuários quanto a capacidade de intervenção da rede. 

A política de prevenção ao suicídio em Sobral teve início em 2006, com a atuação de um psicólogo no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Damião Ximenes Lopes, que se tornou referência para o recebimento das fichas de notificação provenientes da vigilância. Cerca de dez anos depois, houve uma ampliação dessa busca ativa, que deixou de se concentrar na figura de um único profissional e passou a envolver a equipe multiprofissional, que agora atua como matriciadora nos territórios de referência. No mesmo momento, foi implementado um fluxo específico para essa ficha, garantindo seu encaminhamento em até 72 horas, de modo a viabilizar a realização da busca ativa com maior rapidez nos casos de tentativa de suicídio. 

Com a ampliação da equipe e o aumento do número de profissionais envolvidos, foi estruturado um fluxo no qual essas fichas de notificação passaram a ser encaminhadas ao CAPS. Antes, a partir do contato com os casos notificados, verificava-se se o usuário já possuí prontuário em algum serviço. Nos casos em que havia vínculo prévio, o usuário era encaminhado ao técnico de referência para avaliação e estratificação de risco. Quando não havia, o caso era encaminhado aos matriciadores responsáveis pelos territórios, que realizavam a busca ativa em conjunto com a equipe da Atenção Primária. Entretanto, esse processo era marcado pelo forte protagonismo dos profissionais do serviço especializado, enquanto a Atenção Primária assumia um papel secundário, muitas vezes sem se sentir segura para dar continuidade ao cuidado no território. 

A mudança de paradigma começou em 2014, com a consolidação da Rede de Atenção Integral à Saúde Mental (RAISM), quando Sobral passou a estruturar uma resposta territorializada e articulada. A integração entre vigilância em saúde, cuidado contínuo e atuação intersetorial abriu caminho para que a APS assumisse o papel de porta de entrada e ordenadora do cuidado, fortalecendo o vínculo com os usuários e a escuta qualificada.  

Francisco Borges, integrante da equipe gestora da experiência, explica que em 2025 tiveram início as discussões para repensar o fluxo de cuidado e requalificar o sistema de notificação, que desde 2023 já havia sido adaptado para o formato online, substituindo o meio físico por uma ferramenta digital. “O sistema foi reformulado e incorporado a um programa local, acessado pelos trabalhadores mediante login e senha. Nesse ambiente, passaram a ser integradas não apenas as fichas de notificação, mas também as ferramentas de avaliação e acompanhamento dos casos de tentativa de suicídio. Diante desse novo cenário, foram promovidas oficinas para apresentar o sistema aos profissionais e, simultaneamente, repensar o fluxo assistencial, que deixou de estar centrado exclusivamente na rede de saúde mental e passou a incluir a Atenção Primária  

A estratégia considera a complexidade do tema e a necessidade de testar novos arranjos no território. “Diante desse cenário, optamos por realizar um acompanhamento mais direto em cinco unidades de saúde que já apresentavam maior afinidade com a temática, com matriciamento regular e equipes mais sensíveis às demandas de saúde mental. A ideia foi experimentar esse modelo e acompanhar de perto sua implementação. A partir das qualificações e oficinas, foram identificadas as pessoas com notificações registradas, e as equipes iniciaram a busca ativa e a estratificação de risco desses casos”, explica o gestor.  

Nos quadros leves e moderados, o acompanhamento passou a ser realizado pela Atenção Primária de forma regular, porém individualizada, sem um formato rígido, já que depende de diferentes fatores. Entre eles, destaca-se a disponibilidade do próprio usuário, que muitas vezes possui uma rotina intensa, o que dificulta encontros semanais. “Assim, para os casos leves, tem-se priorizado um acompanhamento mensal, ajustado conforme as necessidades de cada situação”, explica Francisco. 

Nos casos moderados, são realizados acompanhamentos semanais com profissionais de diferentes áreas, com intensificação do cuidado conforme a necessidade. Já os casos graves são encaminhados para os serviços especializados, como os CAPS, mobilizando toda a Rede de Atenção Psicossocial. Nesse contexto, o CAPS se configura como núcleo da prevenção no município, responsável por monitorar os casos e realizar autópsias psicossociais, a partir do recebimento da Declaração de Óbito pela vigilância. O serviço também atua no enfrentamento das tentativas de suicídio e da autolesão, com desenvolvimento de projetos voltados à desestigmatização. 

Para implementação da experiência, foram definidos cinco territórios como piloto para a intensificação das ações, com construção conjunta de estratégias e ampliação do monitoramento. Esse trabalho envolve parcerias com a assistência social, direitos humanos e a educação, fortalecendo o protagonismo da Atenção Primária. Para o gestor, “a proposta é fortalecer a política nesses territórios e, posteriormente, expandir a experiência para outras unidades de saúde do município, ampliando sua implementação e alcance”. Após a coleta de informações, os dados são sistematizados e debatidos em espaços intersetoriais, envolvendo saúde, educação e assistência social. O objetivo não é responsabilizar, mas identificar fragilidades e potencialidades da rede. Os resultados são devolvidos à Atenção Primária como recomendações práticas, incluindo intensificação do acompanhamento, fortalecimento de vínculos e revisão de fluxos. A análise dos dados identificou um contingente significativo de pessoas vinculadas à APS sem acompanhamento, além de territórios com maior número de notificações e áreas sem registros, o que evidencia desafios relacionados à subnotificação. 

Para os atores da experiência, entre os avanços institucionais, destacam-se a Portaria nº 60/2016, que estabeleceu o fluxo municipal de notificação e acompanhamento, e a atualização da ficha de notificação em 2021, que trouxe mais precisão aos dados. O Plano Municipal de Prevenção ao Suicídio, elaborado em 2018 com o apoio do Ministério Público, também foi fundamental para a estruturação da rede. “Com a implantação do plano municipal de prevenção ao suicídio, foi possível perceber uma transição do modelo reativo para o modelo orientado, onde é identificada uma qualificação progressiva dos registros, especificamente com a atualização da ficha, onde é identificada uma maior sensibilização das equipes para a vigilância e as tentativas de suicídio,” reforça o gestor.  

Com a implementação da experiência, houve uma redução da subnotificação, ampliação do registro em tempo real e fortalecimento da atuação das equipes. Francisco ressalta que “o aumento no número de notificações não indica necessariamente o aumento do fenômeno, mas sim uma maior capacidade da rede de identificar esse acompanhamento, bem como na taxa de mortalidade por suicídio, apresentando tendência de estabilização e, em alguns períodos, uma redução, sugerindo um impacto das estratégias de cuidado longitudinal no território. Esse movimento revela um dado fundamental: quanto mais a atenção primária se apropria do cuidado e do monitoramento, maior é a capacidade de intervenções precoces”. 

Nesse contexto, no cotidiano da Atenção Primária, o cuidado em saúde mental passa a ser entendido como parte do território e das relações sociais. A estratégia se materializa em práticas como visitas domiciliares, busca ativa, construção de projetos terapêuticos e articulação intersetorial, promovendo uma rede mais integrada e resolutiva. A formação contínua dos profissionais, realizada em parceria com a Escola de Saúde Pública Visconde de Saboia, também fortalece a qualificação das equipes. A criação de uma Comissão Intersetorial Permanente de Prevenção ao Suicídio ainda reforça o caráter coletivo da política e a atuação do Ministério Público impulsionou a organização de fluxos e estratégias diante de um cenário preocupante. Mecanismos como rodas de conversa, grupos terapêuticos e avaliações qualitativas garantem a escuta dos usuários e orientam ajustes nas práticas. 

A experiência de Sobral demonstra que é possível avançar na prevenção ao suicídio a partir do território, com integração da rede e fortalecimento da Atenção Primária. Ao transformar dados em ação e cuidado em política pública, o município reafirma que a prevenção exige presença ativa.  

Crédito: Territórios do cuidado: Experiências inovadoras da prevenção ao suicídio na APS.

Desafios contemporâneos da saúde mental na Atenção Primária e caminhos para um cuidado integrado e territorializado 

Bruno Stelet, médico de família e comunidade, integrante da equipe de Gestão do Conhecimento da Rede Colabora APS aborda os principais problemas que essas experiências de saúde mental enfrentam na Atenção Primária à Saúde (APS) contemporânea no Brasil. Ele explica que após a pandemia, houve um aumento significativo no número de casos, associado ao agravamento de questões macrossociais, como as transformações no mundo do trabalho e o enfraquecimento das relações sociais, fatores que intensificam o sofrimento psíquico. 

Com base nisso, as experiências buscam responder a essa demanda crescente que chega à APS. Ele aponta que um dos principais entraves é a chamada “cultura do encaminhamento” pois não é possível pensar o cuidado em saúde mental apenas a partir do encaminhamento para serviços especializados, que, além de escassos, não dão conta de toda a demanda, onde é necessário fortalecer uma perspectiva de cuidado integral e considerar o que pode ser realizado no próprio âmbito da Atenção Primária. Ele explica que “experiências como as de Maringá e Sobral buscam articular a rede — CAPS, APS, serviços especializados, psicologia e psiquiatria —, criando mecanismos de integração e evitando a fragmentação do cuidado. Um segundo ponto diz respeito às inseguranças clínicas dos profissionais diante dos desafios da saúde mental na APS, como a avaliação de risco de suicídio, o manejo de crises e a distinção entre casos leves e graves. Essa questão aparece de forma bastante evidente no protocolo de enfermagem de Florianópolis, que busca qualificar a atuação das equipes”. 

Essas experiências mostram a crescente pressão sobre a Atenção Primária à Saúde, impulsionada pelo aumento do sofrimento psíquico no período pós-pandemia, pelo uso problemático de álcool e outras drogas e pelo envelhecimento da população, que traz à tona a saúde mental da pessoa idosa, “além da tendência à medicalização de questões sociais. Em muitos casos, recorre-se a medicamentos para situações cujas causas são predominantemente psicossociais. Diante desse cenário, essas iniciativas buscam fortalecer um modelo de cuidado psicossocial, ou biopsicossocial, territorializado e mais capaz de responder às complexidades da vida cotidiana”, pontua Bruno. 

A Rede ColaboraAPS é uma iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Criada com o propósito de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), a Rede busca ampliar processos de aprendizagem colaborativa, promover intercâmbios entre equipes e incentivar a cooperação horizontal entre diferentes territórios e experiências no SUS.  

A iniciativa fomenta a circulação de saberes entre territórios, promove intercâmbios entre equipes, impulsiona a sistematização de conhecimentos aplicados e incentiva processos de aprendizagem colaborativa. Em breve o 1º ciclo colaborativo se encerra e as experiências serão publicizadas em forma de wedocs e outras produções. 

Acompanhe os conteúdos das experiências clicando nos links:  

Belo Horizonte (MG): Semeando Conhecimento, Colhendo Inclusão: Uma Metodologia Coletiva e Replicável na APS para Capacitar Cuidadores no Cuidado ao TEA – Colabora

Brasília (DF): Rede de hortos agroflorestais medicinais biodinâmicos (RHAMB) na Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES/DF) – Colabora

Florianópolis (SC): Protocolo de Enfermagem em Saúde Mental na APS: inovação clínica para o cuidado psicossocial em Florianópolis – Colabora

Maringá (PR): Projeto Novos Rumos – Fortalecimento do Cuidado em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde de Maringá/PR – Colabora

Sobral (CE): Territórios do Cuidado: Experiências inovadoras da prevenção ao suicídio na APS – Colabora