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Incorporação tecnológica e resolutividade na APS: experiências pelo Brasil mostram caminhos para qualificar o cuidado no SUS 

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Por: Manoelli Santos

A Rede ColaboraAPS atua na identificação, sistematização e disseminação de experiências inovadoras no Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo a troca de saberes entre territórios e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS). No âmbito dessa iniciativa, a incorporação tecnológica e a resolutividade são temas que evidenciam como práticas desenvolvidas em diferentes regiões do país têm qualificado o cuidado, ampliado o acesso e a capacidade de resposta dos serviços. Essas experiências reforçam que a tecnologia, em sentido ampliado, não se restringe a equipamentos ou sistemas digitais, mas envolve a reorganização dos processos de trabalho e a qualificação das equipes, configurando-se como elemento estratégico para a transformação do modelo de atenção. 

Nesse sentido, a incorporação tecnológica na APS tem se consolidado como um componente fundamental para ampliar a resolutividade no SUS. Ela envolve tanto a adoção de equipamentos e sistemas digitais, bem como a construção de protocolos e a integração entre os diferentes pontos da rede de atenção. Quando incorporada de forma contextualizada e alinhada às necessidades do território, as tecnologias potencializam a capacidade da APS de responder a possíveis demandas e necessidades, reduzir desigualdades e produzir cuidado integral. 

Para Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador-geral da Rede ColaboraAPS: “a APS se caracteriza, dentre outras coisas, por lidar com distintos tipos de necessidades e problemas de saúde, considerando diferentes públicos, faixas etárias e curso de vida. Isto requer uma alta capacidade clínica e de cuidado, especialmente no manejo de situações mais frequentes ou que requerem abordagem oportuna e capilaridade, em áreas como saúde da criança, da mulher, saúde mental, agravos transmissíveis, condições crônicas não transmissíveis, reabilitação, dentre outras. Para isso, são necessárias determinadas competências profissionais (desenvolvidas antes e ao longo da atuação profissional) e sua combinação com a organização do processo de trabalho, considerando a atuação interprofissional, os tipos de recursos utilizados e as formas de organização dos processos de cuidado”.   

Ao analisar a capacidade clínica da APS, Eduardo destaca que “recursos diagnósticos e terapêuticos são parte da capacidade clínica da APS. No entanto, sabemos que ainda há desafios importantes na APS brasileira neste âmbito, relacionados tanto à formação dos profissionais como à disponibilidade de tecnologias (duras) nos serviços, além de outras condições de trabalho. Por outro lado, tem havido movimentos e iniciativas locais e nacionais visando aprimorar o repertório de atuação das equipes de saúde da família no cuidado das pessoas, sendo importante também acompanhar a qualidade das práticas e ações ofertadas e seus efeitos na saúde e na vida das pessoas”. 

A partir dessas iniciativas e da necessidade de responder aos desafios da APS, torna-se fundamental analisar experiências concretas que materializam esses avanços no cotidiano dos serviços. Nesse contexto, as inovações ganham relevância ao materializar, nos territórios, ofertas articuladas à resolutividade. Essas iniciativas demonstram como a reorganização do cuidado, aliada ao uso de estratégias e ferramentas capazes de ampliar o acesso, qualificar as respostas do sistema e produzir impactos diretos na vida da população. A experiência de Piraí (RJ) se insere nesse cenário como um exemplo emblemático dessa articulação. 

Tecnologia na APS fortalece acesso a contraceptivo de longa duração em Piraí (RJ) 

A experiência “Implante subdérmico na atenção primária em Piraí-RJ: estratégia para ampliação do acesso a método contraceptivo de longa ação”, de Piraí, Rio de Janeiro, se destaca ao evidenciar como a incorporação tecnológica na Atenção Primária à Saúde pode ampliar a resolutividade do cuidado, especialmente no campo da saúde sexual e reprodutiva. 

Mais do que a introdução de um novo insumo, a oferta do implante subdérmico representa a incorporação de uma tecnologia que combina conhecimento técnico, protocolos clínicos e dispositivos, capazes de transformar a prática assistencial. Ao integrar esse método contraceptivo de longa duração no cotidiano das Unidades de Saúde da Família (USF), o município de Piraí desloca a APS de um papel centrado na orientação para um lugar de maior capacidade interventiva, ampliando sua autonomia clínica e sua potência resolutiva. 

Essa incorporação tecnológica foi viabilizada por um conjunto articulado de estratégias: elaboração de protocolo municipal, capacitação teórica e prática de médicos e enfermeiros, aquisição e gestão de insumos e uso do SISREG para organização da demanda. Esse arranjo demonstra que a tecnologia, no contexto do SUS, envolve processos, fluxos e saberes que, quando bem estruturados, qualificam o cuidado.  

Com a descentralização da oferta para nove das quatorze USF do município, o acesso ao implante passou de um cenário restrito à atenção secundária para um modelo territorializado, próximo da população. Segundo os atores da experiência, o tempo de espera, que antes podia chegar a três meses, foi reduzido para até 15 dias, um indicador da melhor capacidade de resposta do sistema. Além disso, a experiência contribui para a ampliação da resolutividade porque aumenta a capacidade da APS de responder efetivamente às necessidades das usuárias. Ao resolver a demanda no próprio território, a experiência de Piraí evita encaminhamentos desnecessários para outros níveis de atenção, garantindo maior autonomia local. 

Juliana de Souza, gestora da experiência, explica que esta implementação: “possibilitou o acesso das mulheres com maior vulnerabilidade, assim como todas as outras, ao método contraceptivo, muito seguro, eficaz e de longa duração. Foi possível, de fato, que o acesso alcançasse as pessoas, que a inserção ocorresse próximo de onde as pessoas vivem, e, também, que pudéssemos acompanhar as pacientes, diante de qualquer dúvida ou qualquer evento diverso que viessem a ter. Ter um acompanhamento desse método fortalece o vínculo e melhora a resolutividade”. 

Segundo a equipe gestora, métodos contraceptivos de longa duração têm maior eficácia justamente por não dependerem do uso contínuo, o que reduz falhas e contribui para a diminuição de gestações não planejadas, especialmente entre jovens de 18 a 25 anos, público predominante na busca pelo método. Juliana ressalta que foi muito importante para as equipes de APS terem a possibilidade de ofertar um método contraceptivo de longa ação dentro da própria unidade. “Não havia o acesso ao método contraceptivo de longa ação, o DIU de cobre, que era disponibilizado pelo Ministério da Saúde, não era fornecido de forma adequada, pois ficava concentrado em um serviço de atenção especializada, nas agendas de profissionais médicos especialistas. Isso dificultava o acesso das pessoas”. Ela também explica as dificuldades do acesso, por conta da caraterística do território: “o município é muito extenso, tem a dificuldade de transporte, mobilidade urbana, ficava difícil o acesso das pacientes a região central”.  

Segundo Juliana, a capacitação dos profissionais também foi importante para que o programa acontecesse. “Foi realizada uma conversa com os profissionais sobre a possibilidade de agregar essa prática à sua unidade naquele momento. A capacitação teórica e prática apenas no modelo anatômico não era suficiente para garantir a segurança do profissional. Entrou um elemento novo nesse processo, que foi o matriciamento in loco.”  

A experiência evidencia que investir em tecnologia na APS é um caminho estratégico para qualificar o cuidado, reduzir desigualdades e fortalecer um sistema de saúde mais eficiente, acessível e centrado nas necessidades da população. Nesse sentido, a proximidade é a peça-chave: “o fato de ser dentro da unidade de saúde, próximo das pessoas e com o profissional que ela tem vínculo favorece a continuidade do método”, completa Juliana de Souza. Nessa mesma perspectiva, outras experiências pelo país reforçam que o uso de tecnologias, quando aliado à reorganização do cuidado e à valorização das equipes, amplia de forma consistente a capacidade resolutiva da Atenção Básica. Ao diversificar estratégias e adaptar soluções às realidades locais, esses territórios demonstram que é possível avançar na garantia de direitos reprodutivos e no acesso a métodos contraceptivos de forma mais equitativa. É nesse cenário que se insere a experiência de Lins (SP), aprofundando esse movimento ao ampliar o acesso ao DIU, evidenciando o papel da APS na resposta às necessidades das usuárias. 

Crédito: Experiência Implante subdérmico na atenção primária em Piraí – RJ: estratégia para ampliação do acesso a método contraceptivo de longa ação.

Uso de tecnologia na Atenção Básica amplia acesso ao DIU e fortalece a resolutividade do cuidado em Lins (SP) 

A experiência de Lins, em São Paulo, intitulada “Reorganização do cuidado sexual e reprodutivo com inserção de DIU pela enfermeira na Atenção Primária à Saúde”, evidencia como a incorporação tecnológica na Atenção Básica pode ampliar o acesso e fortalecer a resolutividade do cuidado no SUS. 

A ampliação do acesso ao dispositivo intrauterino (DIU) ainda é um desafio no Brasil. Embora seja um método contraceptivo seguro, eficaz e de longa duração, sua oferta permanece limitada em muitos territórios, impactando diretamente os direitos reprodutivos. Foi nesse contexto que o município de Lins (SP) estruturou a experiência, destacando-se no campo da incorporação tecnológica e da ampliação da resolutividade, ao reposicionar a enfermagem como protagonista no cuidado em saúde sexual e reprodutiva. 

Segundo os atores da experiência, a iniciativa parte de um diagnóstico claro: a oferta do DIU era restrita, centralizada e permeada por barreiras burocráticas. A resposta do município não foi apenas ampliar o acesso, mas incorporar uma tecnologia em saúde, o DIU como método contraceptivo de longa duração, de forma estratégica na Atenção Básica, qualificando o cuidado e aumentando a capacidade de resposta do sistema. 

A gestora da experiência, Ana Hilara, explica que o fluxo de acesso ao DIU foi estruturado para garantir agilidade e reduzir barreiras no cuidado. “O fluxo é feito por meio de consulta médica ou de enfermagem na unidade de saúde. A paciente é avaliada e, se o DIU for a escolha do método, é encaminhada para a equipe de referência, que realiza a consulta de saúde sexual e reprodutiva. Se estiver apta, já recebe o DIU naquele momento”. Além do fluxo presencial, a iniciativa incorporou uma estratégia digital para ampliar o acesso. “Fica disponível um link no site da prefeitura e nas redes sociais. Se a mulher tem interesse, ela preenche esse link e nós marcamos uma consulta na unidade”, detalha Ana Hilara. Segundo ela, a ferramenta permite maior flexibilidade para as usuárias: “muitas vezes as mulheres não conseguem passar na unidade para uma consulta inicial. Com o link, elas podem preencher no fim de semana, feriado, qualquer horário”.  

Mais do que disponibilizar o insumo, a experiência investiu na tecnologia do cuidado, envolvendo protocolos clínicos, capacitação profissional e reorganização dos processos de trabalho. De acordo com os atores da experiência, a implementação foi sustentada pela Resolução COFEN nº 690/2022, que regulamenta a atuação da enfermagem, permitindo a prescrição de contraceptivos e a inserção do DIU. Com apoio do COREN-SP, foram capacitados 33 enfermeiros, sendo quatro habilitados para o procedimento, ampliando significativamente a oferta do método no território. 

Ao articular tecnologia e reorganização do cuidado, Lins avançou na resolutividade da Atenção Básica. A descentralização do serviço, antes concentrado em um único especialista, permitiu que mais unidades de saúde passassem a ofertar o DIU, reduzindo filas, tempo de espera e demanda reprimida. Segundo os atores da experiência, os resultados evidenciam esse avanço. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, foram realizadas 165 inserções de DIU por enfermeiros, superando as 37 inserções realizadas por médicos nos três anos anteriores. No mesmo período, cerca de 1.600 prescrições de contraceptivos foram registradas, ressaltam os atores da experiência.  

A experiência também incorporou dimensões inovadoras de cuidado, como a humanização do procedimento de inserção do DIU, com uso de música e aromaterapia, promovendo acolhimento e melhor experiência para as usuárias. Em expansão para outros municípios da região de saúde da qual Lins faz parte, com apoio da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) e investimento em educação permanente, a experiência acredita que a sustentabilidade está garantida pela institucionalização em protocolos municipais, pela pactuação de recursos e pela parceria contínua com o COREN-SP. 

Em um país onde o acesso ao DIU ainda é desigual, concentrado entre mulheres com maior renda, a estratégia contribui para reduzir iniquidades e fortalecer o SUS como sistema universal. Nesse sentido, a ampliação do acesso a tecnologias na Atenção Primária à Saúde não se limita ao campo da saúde sexual e reprodutiva, mas se estende a outras demandas historicamente negligenciadas no SUS. Ao articular inovação e organização, com foco nas necessidades reais da população, diferentes territórios vêm demonstrando que é possível promover respostas mais resolutivas. É nessa perspectiva que experiências voltadas à saúde bucal também ganham destaque, ao incorporar tecnologias e reestruturar fluxos assistenciais para garantir cuidado integral. 

Crédito: Experiência Reorganização do cuidado sexual e reprodutivo com inserção de DIU pelo enfermeiro na Atenção Primária à Saúde.

Rio de Janeiro (RJ): prótese dentária e reconstrução da integralidade do cuidado 

A experiência “Em busca da integralidade: o fortalecimento da prótese dentária nas unidades de Atenção Primária Cariocas”, do Rio de Janeiro, evidencia como a incorporação tecnológica pode enfrentar problemas históricos de saúde pública. A estratégia adotada destaca o uso de tecnologias especificamente voltadas ao enfrentamento do edentulismo, articulando recursos que vão além da dimensão instrumental e impactam diretamente a organização do cuidado na APS. O edentulismo é a condição caracterizada pela ausência de dentes, podendo ser parcial ou total. Trata-se de um problema que compromete funções como mastigação e fala, além de impactar a estética e a qualidade de vida. 

A integração entre tecnologias digitais para a confecção de próteses, novos arranjos nos fluxos assistenciais e a capacitação das equipes têm sido centrais para ampliar o acesso e a resolutividade nesse campo. Segundo a gestora da experiência, Patrícia Heras, essa abordagem é fundamental para responder à complexidade da demanda. “A incorporação tecnológica voltada ao enfrentamento do edentulismo na APS envolve um conjunto de recursos que ampliam o acesso, qualificam o cuidado e aumentam a resolutividade dos serviços. Não se trata apenas de equipamentos, mas também de tecnologias organizacionais e de qualificação profissional”, explica.  

Ela destaca ainda que a adoção de tecnologia digital na confecção das próteses, associada a tecnologias de processo de trabalho na organização do fluxo assistencial, é um dos principais avanços dessa estratégia. Também reforça que outro ponto central da experiência é a definição de critérios de prioridade, garantindo que o acesso ao serviço ocorra de forma mais equitativa. A organização da demanda é realizada por meio de protocolos que consideram o grau de vulnerabilidade dos usuários, permitindo que os casos mais urgentes sejam atendidos com maior agilidade. “O protocolo de regulação ambulatorial é baseado na classificação de risco e organiza o acesso dos usuários aos serviços de saúde de acordo com a gravidade e a necessidade de cada caso”. Os grupos em situação de maior vulnerabilidade recebem atenção prioritária: “mulheres vítimas de violência, usuários em situação de rua e acompanhados nos CAPS precisam ser inseridos no risco vermelho, pois estão em situação de extrema vulnerabilidade, necessitando, portanto, de atendimento prioritário”, explica.  

Segundo os atores da experiência, a inclusão da prótese dentária na Carteira de Serviços da APS representa uma inovação importante ao ampliar o escopo de atuação da Atenção Básica. Essa incorporação tecnológica se materializa não apenas na oferta do insumo, mas na construção de protocolos, na capacitação das equipes, na organização de fluxos assistenciais e na articulação com a rede especializada. A estrutura do município, com 241 unidades de APS e 1.446 equipes, incluindo 477 de Saúde Bucal, possibilita que essa tecnologia chegue de forma capilarizada à população. A integração com os Centros de Especialidades Odontológicas garante suporte técnico e continuidade do cuidado, configurando uma rede articulada e resolutiva. 

Os resultados expressivos no número de próteses instaladas revelam um avanço significativo na capacidade da APS de responder a uma demanda historicamente reprimida. Mais do que números, trata-se da reconstrução de funções básicas como mastigação e fala, além do resgate da autoestima e da inclusão social. A resolutividade, nesse contexto, se evidencia na capacidade da APS de acolher, tratar e reabilitar o usuário no próprio território, reduzindo a necessidade de encaminhamentos e fortalecendo seu papel como coordenadora do cuidado. O processo vai muito além da introdução de novos equipamentos. “A incorporação tecnológica na Atenção Primária à Saúde contribui diretamente para sua resolutividade, ao se expressar não apenas no uso de equipamentos e insumos odontológicos voltados à confecção de próteses, mas também na reorganização dos processos de trabalho, na qualificação dos profissionais e na ampliação do escopo de práticas clínicas, potencializando a capacidade de resposta dos serviços às necessidades de saúde da população”, detalha Patrícia. 

Os principais impactos observados na ampliação do acesso aos serviços se referem “à descentralização da oferta de próteses para as unidades de atenção primária, oferta essa que, anterior a 2024, era disponibilizada apenas pelos Centros de Especialidades Odontológicas, ampliando significativamente a cobertura do serviço, sobretudo para populações mais vulneráveis que enfrentam barreiras geográficas, econômicas e organizacionais para acessar níveis mais complexos de atenção”.  

A ampliação da capacidade de atendimento foi um marco importante da experiência. A partir de 2024, mudanças na organização da rede permitiram escalar a oferta do serviço em todo o município, reduzindo gargalos históricos. “A possibilidade de contratação de Laboratórios Regionais de Prótese Dentária (LRPD) ampliou a capacidade operacional do município para responder às demandas da população. No início de 2024 eram oito unidades de APS ofertando prótese; em abril de 2026 já são 91 unidades em todas as áreas do município”, destaca a gestora. 

Os resultados dessa expansão podem ser observados tanto no aumento da produção quanto na redução do tempo de espera. “Em 2023, foram confeccionadas 56 próteses. Em 2024, esse número subiu para 589, e em 2025 chegou a 8.119”, aponta Patrícia Heras, que também evidencia o impacto na fila de espera: “em 2024, o tempo médio de fila era de 420 dias; em 2026 caiu para 120 dias”, conclui. 

Esse conjunto de resultados mostra que a incorporação tecnológica na APS não apenas responde a demandas reprimidas, mas também amplia o escopo do cuidado ao integrar dimensões clínicas, funcionais e sociais. É a partir dessa ampliação do olhar que ultrapassa procedimentos e incorpora práticas centradas nas experiências e modos de vida dos usuários, que emergem iniciativas como a de Santana do Mundaú (AL), apontando para novas possibilidades no cuidado nutricional. 

Crédito: Experiência Em busca da integralidade: o fortalecimento da prótese dentária nas unidades de Atenção Primária Cariocas.

Santana do Mundaú (AL): tecnologias do cuidado e mudança de paradigma na nutrição 

A experiência “Laços Nutritivos: uma abordagem na nutrição comportamental no combate ao sobrepeso e obesidade”, de Santana do Mundaú, em Alagoas, propõe uma inflexão importante no cuidado nutricional ao integrar dimensões emocionais, sociais e culturais da alimentação. A iniciativa rompe com modelos prescritivos e incorpora ferramentas como escalas de avaliação, diário alimentar, práticas de atenção plena e escuta qualificada.  A redução dos índices de obesidade e a melhora dos indicadores metabólicos demonstram que a APS é capaz de intervir de forma consistente em condições crônicas complexas. Além disso, o fortalecimento de vínculos e o protagonismo dos usuários ampliam a sustentabilidade do cuidado, evidenciando que a resolutividade também está relacionada à capacidade de promover autonomia e mudanças duradouras nos modos de vida.  

O Projeto Laços Nutritivos surgiu a partir da identificação de um alto índice de sobrepeso e obesidade no território, frequentemente associado à ansiedade e às dificuldades na relação com a alimentação. Segundo Fernanda Alves, gestora da experiência, a equipe gestora da experiência percebeu que havia uma demanda importante relacionada não só ao excesso de peso, mas também ao sofrimento emocional ligado à alimentação, o que exigia uma abordagem mais abrangente: “os atendimentos centrados apenas em dietas prescritivas não estavam trazendo resultados sustentáveis para os usuários, o que nos fez repensar essa lógica”, explica. Diante desse cenário, o projeto foi desenvolvido com foco em um cuidado ampliado. “A proposta é promover acolhimento, fortalecer a autonomia, integrar a saúde mental ao cuidado nutricional e investir em educação alimentar, buscando mudanças duradouras no estilo de vida”. 

Neste contexto, o projeto incorpora diferentes tecnologias de cuidado em saúde, adotando um conceito ampliado que inclui a forma como o cuidado é produzido na Atenção Primária. Para a gestora, “o projeto trabalha com tecnologias que não são apenas materiais, mas também relacionais, baseadas no modo como profissionais e usuários constroem juntos o cuidado no dia a dia”. A experiência reúne tecnologias leves, como acolhimento, escuta qualificada, criação de vínculo e corresponsabilização, com tecnologias leve-duras, representadas por saberes técnicos estruturados. Entre eles estão protocolos de nutrição comportamental, planejamento, ações de educação em saúde e práticas integrativas. 

Com uma abordagem centrada no cuidado humano, interdisciplinar e territorializado, o Projeto Laços Nutritivos demonstra como a combinação de diferentes tecnologias pode contribuir de forma efetiva para melhorar a qualidade de vida da população atendida. Cerca de 150 pessoas estão sendo acompanhadas ao longo de um ano, com base na abordagem da nutrição comportamental integrada a práticas coletivas e multiprofissionais. “Logo nos primeiros meses já foi possível perceber resultados importantes, principalmente na melhora da relação com a alimentação e no aumento da participação dos usuários nas ações de saúde”, explica Fernanda.  

Nos atendimentos individuais, o projeto oferece consultas de nutrição comportamental com aplicação de protocolos e técnicas de alimentação consciente, além de escuta qualificada e construção do plano terapêutico individual. “Também trabalhamos com terapias holísticas, como a massoterapia, que contribuem para o bem-estar e o cuidado integral. Já nas atividades em grupo, a iniciativa amplia as possibilidades de cuidado e troca entre os participantes. Temos grupos terapêuticos conduzidos pela psicóloga, práticas corporais com profissional de educação física, grupos de educação em saúde e práticas integrativas, como meditação guiada e aromaterapia”, afirma a gestora.  

Neste contexto, o Agente de Cooperação, Leandro Barreto, reforça a importância dessas experiências nos territórios: “mais do que atividades coletivas, observamos o fortalecimento das relações de cuidado, vínculo e responsabilização entre participantes. Estas experiências demonstram a importância da ampliação de equipes multiprofissionais, agregando novos olhares e saberes no cuidado individual na APS e o estímulo às atividades em grupo, com baixíssima incorporação de equipamentos”. 

Nesse sentido, mais do que incorporar novas abordagens assistenciais, torna-se fundamental investir em estratégias que fortaleçam a reflexão crítica sobre o fazer em saúde e ampliem a capacidade de resposta dos serviços. É a partir dessa perspectiva que a experiência desenvolvida em Fortaleza (CE) ganha destaque, ao evidenciar o papel da Educação Permanente em Saúde como eixo estruturante para a inovação e a transformação do cuidado na Atenção Primária. 

Nesse contexto, as experiências que vêm sendo implementadas em diferentes territórios do país evidenciam como a tecnologia, quando apropriada às realidades locais, pode atuar como um elemento estruturante da organização do cuidado. Ao articular dados, apoiar a tomada de decisão e qualificar os fluxos de trabalho, essas soluções fortalecem a capacidade das equipes de identificar prioridades, antecipar riscos e atuar de forma mais proativa junto às populações. A inovação passa a operar como mediadora de práticas mais resolutivas, integradas e orientadas pelas necessidades concretas dos usuários, preparando o terreno para iniciativas como a desenvolvida em Betim. 

Crédito: Experiência Laços nutritivos: uma abordagem da nutrição comportamental no combate ao sobrepeso e obesidade.

Tecnologia digital qualifica estratificação de risco e fortalece cuidado na APS em Betim (MG) 

A experiência “Transformação digital no cuidado em saúde: a implementação da estratificação de risco por meio de formulário eletrônico para HAS, SM, TEA e idosos na Atenção Primária à Saúde”, desenvolvida em Betim (MG), exemplifica como a incorporação de tecnologias digitais pode qualificar a organização do cuidado na Atenção Primária. No município, uma ferramenta eletrônica criada pela própria gestão tornou o processo de estratificação de risco mais ágil, padronizado e orientado por dados, transformando a forma como as equipes acompanham usuários com condições crônicas. 

A experiência tem raízes em um processo iniciado ainda em 2013, quando o município passou a reorganizar a Atenção Primária com base em diretrizes como territorialização, acolhimento e estratificação de risco. Apesar dos avanços, a execução manual do processo revelou limitações importantes ao longo do tempo, como subjetividade na avaliação, dificuldade de monitoramento e incompatibilidade com a rotina das equipes. A proposta de digitalização ganhou força em 2023, quando a Diretoria de Atenção Primária à Saúde (DAPS) idealizou um sistema capaz de aliar prática assistencial e produção de dados para a gestão. Desenvolvido entre março e junho daquele ano, o sistema foi implementado em julho de 2023, com foco em usabilidade e integração ao cotidiano das equipes. 

Desde então, a implantação desse sistema vem substituindo um modelo manual, antes considerado lento e pouco efetivo, permitindo maior precisão na identificação de prioridades e fortalecendo a capacidade de planejamento das equipes. A mudança surgiu justamente da necessidade de qualificar o processo de identificação de risco de pessoas com hipertensão, diabetes, idosos e crianças com suspeita de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Antes, a ausência de dados sistematizados dificultava tanto o trabalho cotidiano das equipes quanto a tomada de decisão pela gestão. Em resposta a esse cenário, a Secretaria Municipal de Saúde, em parceria com a área de Tecnologia da Informação, desenvolveu um formulário eletrônico integrado ao sistema já utilizado na rede, consolidando uma estratégia mais eficiente, inteligente e centrada nas necessidades do território. 

Segundo os atores da experiência, a ferramenta foi implantada nas 41 Unidades Básicas de Saúde do município, envolvendo 114 Equipes de Saúde da Família e 18 equipes multiprofissionais. Com acesso via login institucional, o sistema utiliza critérios clínicos baseados em protocolos oficiais, como a Deliberação CIB-SUS/MG nº 3.993, o IVCF-20 e escalas voltadas ao rastreamento do TEA, como M-CHAT e Autism Behavior Checklist. A partir do preenchimento, o cálculo do risco é feito automaticamente, acompanhado de orientações de conduta para os profissionais. 

Para o gestor da experiência, Joanilson Santos, a implantação da ferramenta digital de estratificação de risco representa um avanço importante para a promoção da equidade na Atenção Primária à Saúde. De acordo com ele, a tecnologia contribui ao padronizar critérios clínicos e reduzir práticas baseadas em avaliações subjetivas na priorização dos usuários, tornando o processo mais justo e transparente. “O cálculo sistemático que a ferramenta disponibiliza permite identificar, de forma mais precisa, pessoas em maior vulnerabilidade clínica e social, como idosos frágeis, pessoas com condições crônicas descompensadas e crianças com contextos de risco para TEA, garantindo que recebam acompanhamento mais oportuno e resolutivo”, afirma. 

Ainda, segundo o gestor, a geração de dados estruturados e o monitoramento contínuo ampliam a capacidade de resposta das equipes de saúde, possibilitando um reconhecimento mais aprofundado do perfil do território e o planejamento de ações direcionadas. Esse processo, alinhado ao Modelo de Atenção às Condições Crônicas e à Política Nacional de Atenção Básica, fortalece a organização do cuidado com base nas necessidades reais da população. “Dessa forma, promove-se um acesso mais justo, qualificado e proporcional ao risco de cada usuário”. Ele aponta alguns resultados com a implementação da ferramenta: “já evidenciamos maior efetividade nas ações de saúde, melhor uso dos recursos disponíveis e avanço nos indicadores assistenciais”, destaca.  

Apesar disso, Joanilson destaca que há avanços em curso. “A equipe de Tecnologia da Informação vem atuando em conjunto com a empresa responsável pelo sistema […] com foco no desenvolvimento de interfaces que permitam a troca de informações por rotinas automatizadas, garantindo maior fluidez e segurança da informação”, explica. A iniciativa busca alinhar o município às diretrizes nacionais de Saúde Digital no SUS. Mesmo sem integração plena, a ferramenta já exerce um papel estratégico ao estruturar dados qualificados sobre o risco dos usuários.” 

No que diz respeito à articulação com outros pontos da rede, o gestor ressalta que os profissionais da Atenção Primária têm acesso aos sistemas MV-SIGSS, na APS, e MV-SOUL, utilizados na Atenção Especializada e na Rede de Urgência e Emergência. Esse acesso permite a consulta a prontuários eletrônicos em diferentes serviços, ampliando a visão sobre o percurso assistencial dos usuários, o que qualifica a tomada de decisão clínica e fortalece a coordenação do cuidado. Ainda assim, ele reconhece limitações. “O acesso ocorre de forma não integrada e pouco automatizada”, afirma. Por isso, as equipes de Tecnologia da Informação seguem empenhadas no desenvolvimento de soluções que promovam maior integração entre os sistemas, com o objetivo de tornar o acesso às informações mais ágil, evitar retrabalho, reduzir a fragmentação do cuidado e potencializar o uso dos dados na prática cotidiana.  

A experiência de Betim evidencia, de forma concreta, como a incorporação tecnológica pode ampliar a resolutividade na APS. Ao substituir processos manuais por uma ferramenta digital, a experiência de Betim aumentou a precisão na estratificação de risco e qualificou o planejamento das equipes. Segundo os autores da experiência, a adoção da ferramenta foi acompanhada por estratégias de educação permanente, com a capacitação de mais de 500 profissionais e a realização de oficinas nas unidades de saúde. Também foram instituídas visitas técnicas e monitoramento mensal, com base em relatórios gerados pelo próprio sistema, permitindo ajustes contínuos e apoio às equipes. Além disso, a parceria com a PUC Minas Betim possibilitou a inserção de estudantes no uso prático da ferramenta, contribuindo para a formação profissional e a disseminação da metodologia. Até dezembro de 2025, mais de 28 mil usuários haviam sido estratificados pelo sistema, evidenciando seu potencial para subsidiar decisões clínicas e organizacionais.  

A iniciativa também contribui para ampliar o acesso de forma mais equitativa, ao articular condições clínicas e vulnerabilidades sociais. Entre os próximos passos, estão a ampliação das funcionalidades do sistema, incluindo a programação do cuidado baseada no risco, a incorporação de critérios sociais, como insegurança alimentar, e a análise mais aprofundada do perfil epidemiológico da população. Ao integrar informação, prática clínica e gestão, a experiência demonstra que soluções simples e bem estruturadas podem aumentar a resolutividade da APS e contribuir para um cuidado mais equitativo, eficiente, contínuo e centrado nas necessidades do território. 

Crédito: Experiência Transformação digital no cuidado em saúde: a implementação da estratificação de risco por meio de formulário eletrônico para HAS, DM, TEA e Idosos na Atenção Primária à Saúde de Betim, Minas Gerais.

Belo Horizonte avança na saúde da mulher com fisioterapia estruturada na APS e aposta em tecnologia para ampliar resolutividade 

A experiência de Belo Horizonte, em Minas Gerais: “Construção de diretrizes e linha de cuidado para abordagem à saúde integral da mulher na Atenção Primária à Saúde – um projeto inédito e inovador do município de Belo Horizonte” reflete um movimento de transformação que vai além da reorganização assistencial, ao incorporar tecnologias de gestão e de cuidado como elementos estruturantes da prática. Nesse sentido, a iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde se articula de forma consistente com os princípios da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), ao consolidar um modelo que integra diretrizes próprias, organização em rede e protagonismo da fisioterapia na APS. 

Assim, ao estruturar protocolos, fluxos e processos de trabalho como dispositivos tecnológicos, a experiência padroniza e qualifica a atenção e amplia a capacidade de resposta dos serviços, fortalecendo a resolutividade no cuidado às mulheres. Dessa forma, a incorporação tecnológica se materializa no cotidiano das equipes como estratégia concreta de inovação, contribuindo para um cuidado mais integrado, eficiente e centrado nas necessidades das usuárias. Mais do que a introdução de equipamentos, a experiência aposta em tecnologias organizacionais e assistenciais, como linhas de cuidado, instrumentos normativos e monitoramento sistemático, para ampliar a capacidade de resposta da APS. Em um contexto em que as equipes multiprofissionais contam com fisioterapeutas, o município reorganiza o papel desse profissional na rede, fortalecendo sua atuação desde a promoção da saúde até a reabilitação. 

Para a gestora da experiência, Paula Lucchesi, “o protocolo traz diretrizes clínicas para orientar as equipes na oferta de um cuidado qualificado diante de uma queixa que, até então, embora muito prevalente, não era captada com frequência na atenção primária. Hoje, os profissionais estão muito mais treinados para lidar com todas as questões relacionadas à saúde da mulher. Tanto a Estratégia de Saúde da Família quanto as equipes multiprofissionais passam a ter um olhar mais qualificado, com melhora na resolutividade e no cuidado no território, além de acesso facilitado.” 

Para os atores da experiência, o ponto de partida do projeto foi a construção de um documento orientador que sistematiza a atuação fisioterapêutica na APS. Estruturado em capítulos temáticos que percorrem o ciclo de vida das mulheres, da adolescência ao climatério, o material traduz evidências científicas e diretrizes clínicas em protocolos aplicáveis no cotidiano dos serviços. Essa sistematização funciona como uma tecnologia leve-dura, ao articular conhecimento técnico e prática assistencial. Ao definir fluxos de encaminhamento, critérios de elegibilidade e atribuições profissionais, o documento reduz a variabilidade do cuidado, qualifica a tomada de decisão clínica e fortalece a coordenação entre os diferentes pontos da rede. 

A etapa de monitoramento contínuo das ações introduz uma dimensão importante de incorporação tecnológica: o uso de dados para gestão e qualificação da assistência. Indicadores de acesso, tipo de atendimento, perfil das usuárias e desfechos clínicos passam a orientar ajustes nas práticas e no planejamento das equipes. Essa lógica fortalece uma cultura de avaliação e tomada de decisão baseada em evidências, permitindo maior precisão na identificação de demandas e na organização da oferta de serviços. Ao mesmo tempo, contribui para dar visibilidade ao impacto da fisioterapia na APS, historicamente pouco mensurado.  

Com a reorganização do cuidado, a APS ampliou significativamente sua capacidade de resposta às demandas relacionadas à saúde da mulher. Entre as ações ofertadas estão grupos de reabilitação pélvica, oficinas de preparação para o parto, atendimentos individuais e atividades educativas, que integram prevenção, promoção e reabilitação. Esse conjunto de ofertas reduz a necessidade de encaminhamentos para a atenção especializada, especialmente em casos que podem ser resolvidos no nível primário. Como resultado, segundo a experiência, há diminuição das filas de espera, maior agilidade no atendimento e fortalecimento do vínculo entre usuárias e equipes de saúde. Além disso, o cuidado passa a acontecer de forma mais territorializada, considerando as especificidades de cada comunidade e promovendo maior equidade no acesso. 

Nesse contexto, a gestora ressalta a importância da experiência no território: “a gente está passando por uma transição do sistema de informação, o que já tem permitido um monitoramento mais apurado e um olhar mais cuidadoso para os dados. Ainda temos o desafio de não contar com um histórico consolidado do projeto, mas, mesmo assim, já conseguimos observar avanços importantes. Houve, por exemplo, uma diminuição na fila de espera para a atenção especializada em ginecologia e nas solicitações de exames de urodinâmica, que antes eram exigidos para o acesso à reabilitação especializada e, com o novo protocolo, deixaram de ser obrigatórios”. 

A experiência segue em expansão, com estratégias contínuas de capacitação e atualização das equipes, fundamentais para garantir a sustentabilidade do projeto. No entanto, desafios como a alta demanda e a rotatividade de profissionais ainda exigem atenção da gestão. Nesse cenário, a manutenção de processos formativos e o fortalecimento das tecnologias de gestão e monitoramento tornam-se essenciais para preservar a qualidade do cuidado e a efetividade das ações. Mesmo com as dificuldades no processo, Paula explica que a equipe percebeu uma redução expressiva no número de cirurgias eletivas para o tratamento da incontinência urinária.  “Isso está diretamente relacionado à ampliação das ações na Atenção Primária. Hoje, temos mais de 37 grupos acontecendo nos territórios, envolvendo nossas 83 equipes multiprofissionais. Esse movimento já impacta diretamente os serviços especializados. No primeiro trimestre de 2025, tínhamos mais de 60 pacientes em acompanhamento na fisioterapia especializada para disfunções do assoalho pélvico. Já no primeiro trimestre deste ano, esse número caiu para 37 pacientes, o que representa uma redução de 47% nessa fila. É um trabalho que vem mostrando resultados concretos a partir do fortalecimento da Atenção Primária.” 

Ao integrar diretrizes clínicas, organização em rede, educação permanente e uso de dados, a iniciativa de Belo Horizonte demonstra que a incorporação tecnológica no SUS vai além da digitalização: trata-se de transformar saberes e processos em ferramentas que ampliam o acesso, qualificam a atenção e aumentam a resolutividade, princípios centrais para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde.  

Crédito: Experiência Construção de diretrizes e linha de cuidado para abordagem à saúde integral da mulher na Atenção Primária à Saúde – um projeto inédito e inovador do municipal de Belo Horizonte.

Desafios para o avanço da incorporação tecnológica e da resolutividade na Atenção Primária à Saúde 

Ao analisar os desafios para o avanço da incorporação tecnológica e da resolutividade na Atenção Primária à Saúde (APS), Bruno Stelet, médico de família e comunidade, integrante da equipe de Gestão do Conhecimento da Rede Colabora APS, aponta que esses entraves envolvem tanto barreiras estruturais quanto culturais, que se entrelaçam no cotidiano dos serviços. “Entre as estruturais, eu destacaria, além de tudo, a necessidade de ampliar a Atenção Primária à Saúde. Não tem como o SUS funcionar bem com uma APS frágil”, afirma. Segundo ele, essa fragilidade desencadeia uma série de outros entraves, como a insuficiência de integração da rede, problemas na gestão, limitações na formação e na educação permanente, além de dificuldades na transformação digital com sentido clínico, desafios de financiamento e baixa capacidade institucional para sustentar mudanças. “A sobrecarga da APS muitas vezes é um limitador para práticas criativas e inovadoras. Mas, por outro lado, é nesse contexto de dificuldades que também se criam novos processos”, completa. 

No campo cultural, Stelet chama atenção para questões igualmente relevantes. “Ainda há subestimação da potência clínica da APS, o que limita a ampliação de seu escopo, como evidenciado em experiências que só avançaram após reposicionar equipes e ampliar atribuições profissionais”, ressalta. Ele também aponta a existência de hierarquias rígidas entre profissões e a dificuldade de lidar com a equidade de forma concreta, para além do discurso. Outro aspecto destacado pelo médico é o desafio da gestão do conhecimento no sistema de saúde. “Muitas vezes o sistema produz prática, mas não produz reflexão sobre essa prática. E, sem sistematização, muita aprendizagem se perde”, explica. Nesse sentido, reforça a importância de iniciativas voltadas à circulação de saberes: “Por isso, a Rede Colabora APS aposta tanto no intercâmbio, na sistematização e na circulação dos conhecimentos produzidos no cotidiano.” 

As experiências postas em diálogo mostram que a ampliação da resolutividade na APS depende tanto da introdução de novos equipamentos e tecnologias como da capacidade de reorganizar o cuidado, qualificar equipes e integrar a rede. Em diferentes regiões do país, iniciativas na Atenção Primária à Saúde vêm demonstrando que a incorporação tecnológica e a resolutividade na APS caminham de forma articulada, ampliando de maneira concreta a capacidade de resposta do SUS. Mais do que a adoção de novos dispositivos, essas experiências apontam para uma transformação no modelo de atenção, com serviços mais acessíveis, integrados e orientados pelas necessidades dos territórios. Ainda que desafios estruturais e culturais persistam, o avanço dessas práticas reforça o papel estratégico da APS na construção de um sistema de saúde mais resolutivo, equitativo e conectado à realidade da população. 

Eduardo Melo reforça que “ter boa capacidade clínica e de cuidado é fundamental também para APS coordenar o cuidado e se legitimar junto à população e aos serviços especializados que devem, por sua vez, oferecer suporte e retaguarda para a APS. Evidentemente, não podemos esquecer que a APS atua com foco em problemas e necessidades individuais e coletivos, não apenas no âmbito clínico, e que ela é parte de uma rede, não podendo dar conta sozinha de tudo”. 

A Rede ColaboraAPS é uma iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Criada com o propósito de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS), a Rede busca ampliar processos de aprendizagem colaborativa, promover intercâmbios entre equipes e incentivar a cooperação horizontal entre diferentes territórios e experiências no SUS.  

A iniciativa fomenta a circulação de saberes entre territórios, promove intercâmbios entre equipes, impulsiona a produção de conhecimento e incentiva processos de aprendizagem colaborativa. Nos próximos meses, as ações da Rede seguem com intercâmbios virtuais e presenciais, além de processos de sistematização e compartilhamento de aprendizados. 

Acompanhe os conteúdos das experiências clicando nos links:  

PIRAÍ (RJ): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/implante-subdermico-na-atencao-primaria-em-pirai-rj-estrategia-para-ampliacao-do-acesso-a-metodo-contraceptivo-de-longa-acao/

LINS (SP): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/reorganizacao-do-cuidado-sexual-e-reprodutivo-com-insercao-de-diu-pelo-enfermeiro-na-atencao-primaria-a-saude/

RIO DE JANEIRO (RJ): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/em-busca-da-integralidade-o-fortalecimento-da-protese-dentaria-nas-unidades-de-atencao-primaria-cariocas/

SANTANA DO MUNDAÚ (AL): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/fortalecendo-a-promocao-da-saude-incentivo-as-praticas-corporais-na-atencao-primaria-prisional/ 

BETIM (MG): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/transformacao-digital-no-cuidado-em-saude-a-implantacao-da-estratificacao-de-risco-por-meio-de-formulario-eletronico-para-has-dm-tea-e-idosos-na-atencao-primaria-a-saude-de-betim-minas-gerais/

BELO HORIZONTE (MG): https://colaboraaps.ensp.fiocruz.br/experiencia/construcao-de-diretrizes-e-linha-de-cuidado-para-abordagem-a-saude-integral-da-mulher-na-atencao-primaria-a-saude-um-projeto-inedito-e-inovador-do-municipio-de-belo-horizonte/